segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Considerações literárias

The delight of opening a new pursuit, or a new course of reading, imparts the vivacity and novelty of youth even to old age.

- Benjamin Disraeli

Perguntas Inteligentes

- Desculpe, tem algum livro de Sophie Calle?
- Não, de momento não temos nada.
- Ah... E isso é na loja toda ou só neste computador?

O dia antes da felicidade




O dia antes da felicidade
Erri de Luca
Bertrand Editora
ISBN 9789722520003



Sinopse
A história de uma criança nascida em Nápoles durante a Segunda Guerra Mundial. Órfã, é adoptada e o livro segue o seu crescimento, a sua visão da guerra, do sofrimento humano mas também do amor e da possibilidade de alcançar a paz e a felicidade.


Excertos da obra:

«Retomei o meu lugar à baliza. Deixavam-me jogar com eles porque ia buscar a bola aonde quer que ela fosse parar. Destino habitual era a varanda do primeiro andar, uma casa abandonada. O rumor era o de que morava lá um fantasma. Os prédios velhos tinham alçapões tapados, passagens secretas, delitos e amores. Os prédios velhos eram ninhos de fantasmas.»

«Percebi que o meu medo era tímido, para se mostrar precisava de estar sozinho. Ali, ao invés, havia os olhos das crianças em baixo e os dela em cima. O meu medo envergonhava-se de sair. Vingar-se-ia depois na cama, à noite, no escuro, com o rumorejar dos fantasmas do vazio.»


A história deste livro (contada com uma mágoa doce como a dos contos infantis, como as fábulas) é contada pela voz de um jovem orfão (começa quando ele tem 6 anos e continua durante a sua juventude) mas não é a sua história... É a história de uma época negra do passado recente (Segunda Guerra Mundial), a história de uma luta silenciosa e a história de uma cidade italiana, Nápoles, e da forma determinada com que sobreviveu à escuridão.

Ao descobrir um quarto escondido ao procurar pela bola com que tanto ansiava jogar com os rapazes mais crescidos (de 9 anos), o narrador está longe de saber a dor, o medo e a ânsia de liberdade que esse quarto já presenciara. É através de D. Gaetano, vizinho, professor, orfão (como ele prórpio) e contador de histórias que o jovem vem a descobrir o negrume que a sua cidade viveu durante o ano do seu nascimento, 1943. Naquele quarto Gaetano, correndo riscos mas querendo fazer algo de bom para se recordar a si próprio que a bondade ainda é uma característica do ser humano, deu guarita e ajudou a esconder um judeu durante a guerra.

O dia antes da liberdade que nos fala o livro não é o dia antes dos primeiros pontapés na bola de um jovem rapaz... É o dia antes da libertação de todos os judeus que tiveram de esconder e de, certa forma, se anular enquanto indivíduos.


Nota 3

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Valha-me Deus!!!

Por vezes é ingrato o papel do comerciante. E se falamos de livreiros...

A rapariga aproximou-se de mim... Muito fashion, magra (como ditam as regras) e com aquele ar de quem se julga o centro do mundo.

- Olhe, queria um livro mas não sei o autor... É um tal de "Maias", conhece?
- Boa tarde! Sim, conheço! Pretende a edição dos Livros do Brasil?
- Daaah, o autor é português!

Ok...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ácido sulfúrico




Ácido sulfúrico
Amélie Nothomb
Edições Asa
EAN 9789724150864
ISBN 978-972-41-5086-4



Nesta altura do ano, ao trabalhar numa livraria, o trabalho e o cansaço são muitos e o tempo e disposição de leitura poucos. No entanto, ao arrumar os livros um dia, no trabalho, este sobressaiu por entre os outros. Primeiro porque já algum tempo esta autora me suscitava alguma curiosidade, segundo porque, por ser um livro pequeno, poderia (achava eu) lê-lo rapidamente... Claro que não contava em adormecer ao fim de cada parágrafo!

Num livro que é, simultaneamente, uma crítica a um dos períodos mais negros da história e da sociedade actual, Amelie Nothomb cria um ambiente extremo num reality show, "Concentração", onde os participantes se dividem em dois grupos dos quais um está destinado a perder tudo. Passado num ambiente em tudo similar aos campos de concentração nazis, encontramos, de um lado, os kapo, os participantes que se propuseram ao concurso, pessoas maioritariamente estúpidas, incultas e sedentas de fama o suficiente para acatarem ordens sem as questionarem. Do outro lado encontramos os prisioneiros, pessoas "sequestradas" das ruas contra a sua vontade, e a quem nada mais resta senão aguardar um milagre que lhes devolva a liberdade. Todos os dias os prisioneiros escolhidos pela organização do programa são chamados durante a apresentação matinal e encontram o seu fim (do programa e da vida).

No meio da podridão humana e social que é "Concentração", Zdena, uma das kapo mais crueis, que é, como podemos ler na sinopse, "uma mulher desempregada que espera aproveitar o seu posto de kapo para desencadear a sua vingança sobre a sociedade", vai encontrar o seu objecto de desejo. CKZ 114. A jovem, tal como todos os outros prisioneiros, fora desde o início privada da sua individualidade e reconhecida como "uma coisa" à qual fora atribuída uma matrícula, à semelhança dos judeus durante a Segunda Grande Guerra, talvez na vã esperança de impedir uma empatia entre o público e os detidos. Zdena vive obcecada com a jovem e deseja, mais que nada, atribuir um nome ao rosto que a atormenta. Mas CKZ 114, ou Pannonique (pois é esse o seu nome) não quer ceder ao pedido da guarda receando perder, assim, o que ainda considera um direito seu, algo pessoal que a relembra que, acima de tudo, é humana. Quando nos roubam a identidade nada é mais sagrado que o nosso nome. Quando nos sentimos atraídos por algo ou alguém nada tem mais valor que poder dar um nome ao objecto do nosso desejo.

É a partir desta premissa que se desenrola o livro. Um jogo de desejos antagónicos que se medem e gladiam durante uma luta de interesses.


Nota 4

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sua Majestade...





"A Leitora Real"
Alan Bennett
Edições Asa
EAN 9789892306490
ISBN 978-989-23-0649-0



Excerto:

"A culpa foi dos cães. Eram snobs e, depois de terem estado no jardim, seria normal que subissem os degraus da entrada, onde geralmente um criado lhes abria a porta. Contudo, hoje, por alguma razão, correram pelo terraço a ladrar desalmadamente, voltaram a lançar-se escada abaixo e a contornar a casa, onde ela os ouviu ganir para qualquer coisa num dos pátios.
Era a biblioteca itinerante da cidade de Westminster: uma grande carrinha semelhante às das mudanças, estacionada lá fora ao pé dos contentores, junto a uma das portas da cozinha. Era uma parte do palácio que ela não via muito e certamente nunca lá vira a biblioteca. Tal como os cães, provavelmente, e daí o barulho; assim, falhada a tentativa de os acalmar, subiu os pequenos degraus da carrinha para pedir desculpa."

E é assim, em dois pequenos parágrafos, que o autor nos dá o mote para o pequeno livro que temos em mãos: a descoberta do mundo literário pela Rainha da Inglaterra, aos oitenta anos da soberana.

Alan Bennett, nascido à 75 anos em Leeds, é notoriamente conhecido como humorista, actor e autor, e tem, no sentido de humor e na sátira, a sua marca pessoal. Este livro, que na versão original tem o título "The Common Reader", um título cujo jogo de palavras é muito melhor conseguido que na tradução portuguesa, é uma ironia em torno da realeza britânica, dos governos políticos e dos "perigos" dos conhecimentos literários.

Isabel II, soberana à algumas décadas, nunca foi particularmente conhecedora ou apreciadora de literatura. Para ela os livros eram, pura e simplesmente, uma perda de tempo. No entanto, e naquele dia, ao entrar na carrinha da biblioteca itinerária, com o único intuito de pedir desculpas, e ao encontrar-se frente a frente não só com o bibliotecário mas também com Norman, o ajudante de cozinha, acaba por, devido ao seu próprio constrangimento, requisitar um livro. A escolha (feita pelo processo "conheço pessoalmente este autor, não conheço pessoalmente este" deixa-a desiludida... A promessa literária não se ergue à altura das expectativas reais. No entanto, ao ir entregar o livro (com todas as intenções de não repetir a façanha) acaba por se ver guiada por Norman por um labirinto de livros e autores os quais nem sabia existir.

O livro, light e despretencioso lê-se facilmente... Nesta época, em que o tempo e a vontade por vezes parecem nem existir, soube-me bem poder pegar num livro leve e irónico, que me entretia enquanto me abria o apetite para outros livros e outros autores. É, obviamente, uma ficção irreal (e o final não deixa quaisquer dúvidas sobre isso), mas as descrições, principalmente, dos interiores do Palácio de Buckinham quase nos fazem acreditar que as coisas podiam ser assim.

Recomendo a quem, como eu, anda apertado de tempo mas continua a valorizar os poucos momentos à noite em que, antes de adormecer em cima do livro aberto (por vezes quase babando as folhas, admito!) pode fechar a porta do quarto e, egoisticamente, dedicar-se ao prazer da leitura.


Nota 3

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Paris Review




Entrevistas da Paris Review
Selecção de Carlos Vaz Marques
Edições Tinta da China
ISBN 9789896710149



«Sem a "Paris Review", teríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges - para citar apenas três dos dez autores que estão neste livro - mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária do século XX.»
Carlos Vaz Marques


Não poderia estar mais de acordo com esta afirmação de Carlos Vaz Marques. Estas entrevistas são verdadeiras janelas que nos permitem "deitar o olho" não só ao ambiente e quotidiano de grandes autores, como também à sua maneira de pensar e agir. De tom intimista estas entrevistas propõem-se, com sucesso, a deitar abaixo a divisória entre o autor-mito e o autor-homem, tornando-os acessíveis ao grande público e aos inúmeros seguidores.

Cronologicamente, este livro leva-nos desde a primeira edição da revista nova-iorquina, em 1953, com E. M. Forster até ao ano de 1968 com Jack Kerouac. E, pelas suas páginas vamos conhecendo alguns dos maiores vultos literários dos últimos 56 anos... A saber:

E. M. Forster
Graham Greene
William Faulkner
Truman Capote
Ernest Hemingway
Lawrence Durrell
Boris Pasternak
Saul Bellow
Jorge Luis Borges
Jack Kerouac


Gostei do livro mas este tem, a meu ver, uma enorme lacuna: A total ausência de entrevistas a mulheres escritoras. E Carlos Vaz Marques tinha, se assim o entendesse, nomes por onde escolher (mesmo confinado ao limite temporal dos anos 50 e 60) - Isak Dinesen (também conhecida por Karen Blixen), Dorothy Parker, Françoise Sagan (que me foi imposta na escola com o seu Bonjour Tristesse), Simone de Beauvoir, Lillian Hellman, Mary McCarthy, Marianne Moore e Katherine Anne Porter. Concordo que, ao contrário dos nomes que constam no livro, a maior parte destas autores passa despercebida ao grande público mas esse seria, a meu ver, mais um incentivo para deixar que pelo menos um par delas passasse à edição final: seria uma excelente maneira de dar a conhecer "novos" autores ao público nacional... Bem... Fica para a próxima!


Nota 3

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Clássicos com humor




90 Livros Clássicos Para Pessoas Com Pressa
Henrik Lange
ISBN: 978-972-23-4253-7
EAN 9789722342537




Sinopse: 90 dos maiores clássicos encontram-se aqui reunidos em páginas repletas de sabedoria e humor. Através de quatro ilustrações acompanhadas de textos curtos e incisivos, resumimos-lhe tudo o que já devia ter lido e nunca conseguiu. Perfeito para pessoas com pressa ou simplesmente para quem gosta de ler.

Parece-lhe impossível ler 90 livros em apenas uma hora? Agora já não é uma meta do outro mundo. 90 Livros Clássicos para Pessoas Com Pressa trata-se de uma obra sobre os maiores livros de sempre, todos eles clássicos e de leitura obrigatória. Se não os leu, agora é a sua oportunidade de os ler a todos de uma assentada. Se os leu, poderá lê-los aqui outra vez e verificar o que retinha na memória. Em quatro vinhetas, contamos-lhe toda a história, uma espécie de romance destilado, para que consiga ler 90 livros numa hora. Perfeito para pessoas com pressa ou simplesmente para quem não tem tempo.



Tenho andado com pouco tempo para leituras... Todos sabemos como é; alturas de mais trabalho, misturada com a constipação sazonal e uma vontade de não fazer nada... só aconchegarmo-nos no sofá com um chocolate quente e por os filmes em dia. Mas peguei neste pequeno livro e tive de o ler (basicamente de uma assentada). O livro, à que ter em conta, não é um livro de críticas literárias, é um livro de humor! Um livro de humor em que podemos encontrar, em cada página, um spoiler para um clássico da literatura.

O livro lê-se rapidamente: cada página é um livro (ou, se quiser ser precisa, cada duas páginas: a da esquerda dá o título, o ano de edição, o nome do autor e os anos do seu nascimento e morte - aos que se aplica o último dado, obviamente), e cada livro é relatado em quatro vinhetas de B.D. (ou, uma vez mais na busca da precisão, em 3 vinhetas, pois a primeira é sempre uma repetição do título).

Os resumos são básicos e, muitas vezes, super incomplectos (o de D. Quixote, por exemplo, não faz qualquer referência a essa grande personagem que foi Sancho Pança), mas bastante divertidos.

No entanto tenham cuidado ao lê-los pois podem estragar-vos o final de um livro. No resumo de "Convite para a morte", por exemplo (um excelente livro da Dama do Crime, Agatha Christie, que fez as minhas delícias quando tinha cerca de 12 anos), os autores apontam quem é o assassino da história (o que, diga-se de passagem, é um balde de água fria, principalmente porque o resumo não deixa ver a grandiosidade do enredo).


No geral, um livro giro, divertido e despretencioso.



Nota 3

sábado, 7 de novembro de 2009

Novidade fresquinha...




Auto-retrato de um escritor
(enquanto corredor de fundo)
Haruki Murakami
Casa das Letras
ISBN 9789724619231


Sinopse

Em 1982, ao mesmo tempo que abandonava o lugar à frente dos destinos do clube de jazz e que tomava a decisão de se dedicar à escrita, Haruki Murakami começava a correr. No ano seguinte, abalançou-se a percorrer sozinho o trajecto que separa Atenas da cidade de Maratona. Depois de participar em dezenas de provas de longa distância e em triatlos, o romancista reflecte neste livro sobre o que significa para ele correr e como a corrida se reflectiu na sua maneira de escrever. Os treinos diários, a sua paixão pela música, a consciência da passagem do tempo, os lugares por onde viaja acompanham-no ao longo de um relato em que escrever e correr se traduzem numa forma de estar na vida. Diário, ensaio autobiográfico, elogio da corrida, de tudo um pouco podemos encontrar aqui. Haruki Murakami abre o livro das confidências (e a sua alma) e dá a ler aos seus fiéis leitores uma meditação luminosa sobre esse ser bípede em permanente busca de verdade que é o homem

«Haruki Murakami, o mais célebre escritor japonês vivo, já contou a história muitas vezes: quando tem uma ideia, começa a escrever. Não monta uma estrutura, não faz um esqueleto, não se prepara. Senta-se e escreve, simplesmente.»Bárbara Reis, Público

«Extremamente pessoal, sincero e comovente.»Publishers Weekly

«Altamente recomendado.»New York Sun


Uma visão mais pessoal de um dos maiores autores de culto da actualidade.
Filho de um sacerdote budista Murakami ficou, desde cedo, fascinado pela cultura ocidental. Outra das suas paixões foi a música, tendo, inclusivé, aberto e mantido durante 7 anos um café onde, à noite, se apresentavam músicos de Jazz. Essa sua paixão acabou por o influenciar na sua escrita, sendo que o título de vários dos seus livros são baseados em camções, óperas, ou peças de música (de Mozart, Schumann e Rossini aos Beatles e a Nat King Cole). Aos 33 anos descobre um novo gosto; a corrida, tendo acabado por participar em inúmeras maratonas. É este amor tardio que aborda neste livro que chegou hoje às livrarias. Um livro honesto, uma janela para melhor dar a conhecer o homem por trás do culto literário.
Um livro pequeno, ilustrado com fotografias pessoais do autor, que nos ajuda a perceber o homem por trás dos êxitos "Kafka à beira mar", "Sputnik meu amor" e "Em busca do Carneiro selvagem".

domingo, 25 de outubro de 2009

Beloved




Beloved
Toni Morrison
Dom Quixote
EAN 9789722038157
ISBN 978-972-20-3815-7



Sinopse:

Publicado em 1987 e vencedor do Prémio Pulitzer de 1988, a obra-prima de Toni Morrison decorre num Ohio pós-Guerra da Secessão, um local que ofereceu a Morrison "uma fuga aos ambientes negros estereotipados... nem ghetto nem plantação de escravos".

Beloved é a história de uma antiga família de escravos: Sixo, que "deixou de falar inglês porque não via nisso qualquer futuro"; Baby Suggs, que faz do coração o seu modo de vida porque "rebentou com as pernas, costas, cabeça, olhos, mãos, rins ventre e língua"; Halle, o filho mais novo de Baby, que se deixa alugar para comprar a liberdade da mãe; Sethe, a mulher de Halle; e a filha de ambos, Denver. O romance centra-se em Sethe e no legado que o tempo de escravatura lhe deixou - o fantasma da sua primeira filha, Beloved - , pelo qual é, literalmente, assombrada.


Morrison, para além de ser uma Prémio Nobel da Literatura é, acima de tudo, uma das maiores escritoras negras norte-americanas... Uma autora que descreve, nas suas obras, a realidade, as crenças e o folclore dos African-Americans.
Este é um perfeito exemplo dessa característica literária e criativa de Morrison... E, para ser perfeitamente honesta, não sei se gostei ou não do livro... É um livro estranho, confuso, poderoso e cru... Por vezes, de difícil digestão.

A história centra-se em Sethe. Anos antes da acção, e numa tentativa desesperada para fugir à sua vida de escravatura, Sethe põe-se em fuga na companhia dos filhos, buscando guarida na casa da sogra (a quem o marido conseguira comprar a liberdade) mas, após uma perseguição por parte dos seus "Donos", e tal como um animal encurralado, Sethe perde, momentaneamente, a razão e, para impedir que a filha, Beloved, venha a passar pelo mesmo que ela enquanto produto da escravatura, mata a criança, de forma a impedir que os "Donos" a apanhem. Antes que consiga fazer o mesmo aos rapazes (matá-los) é apanhada. Mas, o peso da sua loucura nunca a abandonará e será, para sempre, olhada com desconfiança por brancos e negros... Anos mais tarde, estando a viver com a filha (da qual estava grávida aquando da tragédia) na casa da sua sogra, será assombrada por duas personagens... Paul D., um ex companheiro de escravidão... E uma jovem que, para Sethe, é, sem sombra de dúvidas, a reencarnação de Beloved.
Durante a obra, e através de simbolismos mais ou menos evidentes, iremos ser confrontados com essa teoria e com a dúvida... Será mesmo que Beloved voltou para junto da mãe para se vingar ou, talvez, perdoar e assim dar alguma paz de espírito... Ou será este mais um surto de insanidade por parte de uma mulher a quem o percurso de vida fragilizou o espírito e a razão da mesma maneira que lhe marcou o corpo?

Nota 3

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Fúria Divina



Está para breve o lançamento do mais recente livro de José Rodrigues dos Santos e, apesar de não dizerem sobre o que o mesmo tratará, a sua editora, Gradiva, já fez saber que "Depois de tratar a crise energética e os últimos avanços da ciência numa mistura extremamente hábil e subtil de ficção e realidade, José Rodrigues dos Santos traz-nos mais um tema escaldante da actualidade, num acontecimento editorial que dará muito que falar."

Assim sendo, e se quiser ser um dos primeiros a conhecer a nova obra do escritor português, compareça dia 24 de Outubro (Sábado) na Praça Central do C.C. Colombo onde se irá dar o lançamento seguido de uma sessão de autógrafos.

Ainda segundo a Gradiva «O novo romance de José Rodrigues dos Santos, Fúria Divina, vai ser apresentado em Lisboa por um dos primeiros operacionais da Al-Qaeda. Abdullah Yusuf já se encontra em Portugal, tendo chegado há alguns dias de África especificamente para apresentar esta obra.Abdullah Yusuf reuniu-se por diversas vezes com Osama Bin Laden no Afeganistão e foi autor de um atentado reivindicado pela Al-Qaeda. Contactado por José Rodrigues dos Santos durante o processo de pesquisa para a obra Fúria Divina, tornou-se consultor deste romance protagonizado por Tomás Noronha sobre o islão radical.Abdullah Yusuf irá falar este sábado, 24 de Outubro, na apresentação de Fúria Divina, cerimónia que está marcada para a praça central do Centro Colombo, em Lisboa, às 17h00 – um evento aberto ao público. Outro apresentador do novo romance de José Rodrigues dos Santos será o General Leonel Carvalho, antigo chefe do gabinete de segurança interna do Governo português.A cerimónia de apresentação do livro contará ainda com a representação teatral de uma cena de Fúria Divina, a cargo do grupo de teatro Fatias de Cá, de Tomar.»

Já só falta uma semana...




O Símbolo Perdido
Dan Brown
Bertrand Editora
ISBN 9789722520140



Recentemente, numa conversa sobre leituras e mau tempo, um amigo disse-me que gosta de ter alguns livros de parte para as noites de inverno, quando a chuva fustiga as janelas e nos aconchegamos em mantas em frente à janela com uma caneca de chocolatequente nas mãos (ok, o chocolate é opção minha). Este é um desses livros. O que pode ser melhor, para nos sentirmos secos, quentes e abstraidos do temporal lá fora que um thriller que envolve o génio policial de Dan Brown e os segredos da Maçonaria?

A história tem lugar em Washington, D.C., no espaço de 12 horas. Robert Langdon (personagem recorrente do autor), é, aparentemente, convidado pelo seu mentor, o Maçon Peter Solomon, director da Smithsonian Institution, para dar uma palestra na National Statuary Hall no Capitólio. Contudo, ao chegar ao local, ao invés de uma assembleia, o que o espera é a mão decepada de Solomon tatuada com o símbolo Hand of the Mysteries (A Mão dos Mistérios) apontando directamente para o fresco Apotheosis of Washington (A Apoteose de Washington) na cúpula do Capitólio. Solomon fora raptado por Mal'akh, o qual exige que Landon decifre The Ancient Mysteries (Os Antigos Mistérios) em troca da vida do seu mentor. Isto leva a um jogo de perseguições entre a arquitectura e os museus de Washington, durante as quais Langdon e a irmã de Solomon fogem não só de Mal'akh mas também da CIA.

Para saber mais... Dia 29 de Outubro!!!

domingo, 18 de outubro de 2009

Nicholas Sparks

É já dia 3 de Novembro que chega às lojas a nova aposta de Nicholas Sparks, "A Melodia do Adeus"!





Practicamente um ano após o seu último livro, "Um homem com sorte", o famoso autor norte americano (que granjeou bastante da sua fama graças às adaptações dos seus livros para o grande ecran) presenteia o seu vasto número de fãs com um novo romance que, tendo em conta a história, não os irá desapontar.

Sinopse
Com apenas dezassete anos, Verónica Miller - ou «Ronnie», como é carinhosamente chamada - vê a sua vida virada do avesso quando o casamento dos pais chega ao fim e o pai se muda da cidade de Nova Iorque, onde vivem, para Wrightsville Beach, uma pequena cidade costeira na Carolina do Norte. Três anos não são suficientes para apaziguar o seu ressentimento, e quando passa um Verão na companhia do pai, Ronnie rejeita com rebeldia todas as suas tentativas de aproximação, ameaçando antecipar o seu regresso a Nova Iorque. Mas será na tranquilidade que envolve o correr dos dias em Wrightsville Beach que Ronnie irá descobrir a beleza do primeiro amor, quando conhece Will, e vai afrouxando, uma a uma, todas as suas defesas, deixando-se tomar por uma paixão irrefreável e de efeitos devastadores. Nicholas Sparks é, como sabemos, um mestre da moderna trama amorosa, e, em A Melodia do Adeus, usa de extrema sensibilidade para abordar a força e a vulnerabilidade que envolvem o primeiro encontro com o amor e o seu imenso poder para ferir… e curar.


E, mantendo a consistência que o caracteriza e que o leva a escrever livros que possam, facilmente, ser adaptados ao cinema, consta que já está em andamento uma versão cinematográfica deste livro, a estrear em 2010, que terá, no papel principal, Miley Cyrus, a famosa Hannah Montana.





sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Papisa Joana




A Papisa Joana
Donna Woolfolk Cross
Editorial Presença
EAN 9789722326414
ISBN 972-23-2641-4




Li este livro à cerca de 3 ou 5 anos e adorei. Gosto muito de romances históricos, quando são bem escritos e, como uma amiga já mo referiu, tenho uma predilecção por histórias onde as mulheres sejam retratadas como os seres fortes e determinados que eu sei que são. Acho (e quem se debruçar pela história não o poderá negar) que o papel da mulher na sociedade ao longo dos tempos é uma história rica, cheia de contrastes e de obstáculos transpostos com esforço e trabalho colectivo, e, também de hipocrisia, a hipocrisia da sociedade cega às suas características e forças. Esta é a história de uma dessas mulheres. Uma mulher cuja tenacidade, inteligência e estudo a levou ao vaticano e que pagou com a vida e com o esquecimento, propositado, do seu nome pelas gerações futuras. De tal forma que, para as gerações actuais, a Papisa Joana mais não é que um mito, uma lenda, uma história da carochinha.

Sinopse:
Na galeria das mais extraordinárias e controversas figuras do Ocidente, a Papisa Joana assume contornos brumosos, enigmáticos e fascinantes. Muitos negaram, ao longo dos séculos, a sua existência, mas é ainda considerável a quantidade de documentos que referem a sua passagem pelo trono papal. Personagem histórica ou lendária, Joana protagoniza a notável ascenção de uma mulher brilhante que não aceita as limitações da sua época, profundamente misógina, lhe impõe e, armada de uma inteligência esclarecida e de uma força de carácter inquebrantável, conquista o mais elevado poder religioso.

Filha de um cónego que sonhava que o seu filho seria capaz de levar o nome da família longe na carreira religiosa, Joana coloca-se entre os planos do pai pois é óbvio, para quem conviva com os dois irmão, que é a rapariga e não o rapaz quem possui a inteligência, a vocação e as capacidades de se vir a tornar alguém. Mas, nascida em 814, Joana tinha já o destino traçado desde a barriga da mãe (como todas as outras raparigas); cresceria a ser obediente - primeiro ao pai e depois ao marido, aprenderia a cuidar da casa e dos filhos e tornar-se-ia um pilar da família e da aldeia em que habitasse, um exemplo do papel feminino subjugado e oprimido. Tendo tido, algum tipo de, educação vê-se, subitamente confrontada, aos 15 anos, com a imposição de um casamento. No seu desespero não encontra outra solução, de forma a continuar a prosseguir os estudos, senão tentar por todos os meios ao seu alcance (mesmo que mundando de género) continuar a cultivar a mente em prol da vida puramente física e sexual de todas as mulheres que conhece. E assim nasce João Anglicus. A história viria a dar razão à sua escolha quando, anos mais tarde, a foi encontrar sentada no trono papal. Mas a sociedade, governada pelos homens, não lhe perdoara que tivesse provado de forma tão eficaz que estariam todos cegos às verdadeiras potencialidades do "sexo fraco" tendo, para mais, conspurcado a divina instituição religiosa (que, como todos sabemos, já tinha a mulher em péssima consideração) e, para a calar e a outras como ela, Joana pagou com a vida e com o esquecimento.

Nota 4

Porque os olhos também comem!

Como já demonstrei pelos meus posts neste blog, aprecio bastante, literariamente falando, os clássicos (Ingleses e Portugueses) e compro-os frequentemente em português (recorrendo, para isso, frequentemente aos preços amigos e convidativos dos alfarrabistas) mas, lendo com a mesma facilidade o idioma de Sakespeare e Byron por vezes escolho as baratinhas versões pocket dos britânicos (e americanos) para aumentar a minha biblioteca.


Desta vez, porém, a compra foi por gulodice. Como quando vamos ao restaurante e, apesar de cheios, a mousse de manga ou a tarte de natas nos acenam do balcão dos frios. Foi o mesmo! Juro!!!


Eis que encontro, a olhar para mim sorrateiramente e a acenar, duas irmãs minhas conhecidas. A Charlotte e a Emily Brontë. Os livros, em versão portuguesa, já à muito habitavam as prateleiras sobrelotadas da minha humilde biblioteca. Mas, mesmo assim, estes dois volumes teimavam em vir conhecer os seus homólogos portugueses ("A Paixão de Jane Eyre" e o "Monte dos vendavais"). A verdade é que não resisti à edição, quase uma réplica de livros do século XVIII, de tamanho pequeno (têm um palmo) como era costume nos livros que as senhoras liam por se tornar mais fácil ocultá-los entre as saias na eventualidade de alguma visita inesperada (sim, uma mulher pensante, estudiosa e comconsciência própria não era considerada atractiva). A capa parece de tecido, o que a torna super agradável ao toque e tem, até, o pormenor da pequena fita acetinada para se marcar o local em que se ficou na última leitura. A editora é a Gramercy Books de New York. E a melhor parte... Cada volume foi apenas 3,50€.






Jane Eyre
Charlotte Brontë
ISBN-10: 0-517-22775-4
ISBN-13: 978-0-517-22775-6



Wuthering Heights
Emily Brontë
ISBN-10: 0-517-22782-7
ISBN-13: 978-0-517-22782-4

Em busca dos 15 minutos de fama




Duras Verdades
David Lodge
Edições Asa
EAN 9789724131283
ISBN 972-41-3128-9



Estava eu numa sessão de zapping numa destas noites em que a programação televisiva parece estar contra a minha vontade pessoal de vegetar em frente ao televisor quando encontrei, num canal com o enigmático nome E! (descobri que significa Entertainment!) aquele que será, porventura, o programa mais nauseante e descabido que até agora encontrei. O seu nome "Streets of Hollywood" O conteúdo... bem... Na verdade é uma sequência infidável de flashes de luz enquanto acompanhamos um grupo de papparazzi na sua nobre missão de descobrir coisas tão importantes para a humanidade como onde a Britney Spears vai à noite comer gelado, se a Lindsay Lohan se lembrou de vestir as cuecas desta vez ou qual o nome do namorado daquela hora da Paris Hilton. Para mim, que preso a minha individualidade e privacidade esta realidade nada mais é que a soma de todos os meus medos e terrores. Para as meninas perseguidas é... o êxtase. É para isto que vivem. Não digo trabalham porque, na grande maioria, o seu trabalho é servir de guia a este magote de fotógrafos. Ora, ao fim de 2 minutos (mais ou menos o tempo que o meu cérebro aguentou esta nova forma de tortura), e depois de mudar o canal, dei comigo a pensar neste livro. Já o li à algum tempo mas, com a sede cada vez maior que as pessoas parecem ter da celebridade (fácil e sem esforço, trabalho ou talento), este parece ser cada vez mais actual.

Como diz a sinopse da obra:

"Adrian Ludlow, escritor reputado e autor de um livro que fez grande sucesso, procura agora a obscuridade, vivendo numa pequena casa por detrás do aeroporto de Gatwick. Quando Sam Sharp, seu amigo dos tempos da faculdade e agora um famoso guionista, lhe dá conta de como fora maltratado num jornal de Domingo por Fanny Tarrant - uma entrevistadora da nova geração de jornalistas implacáveis - decidem juntos urdir uma vingança. Numa época marcada por escândalos e tragédias, em que os media se afirmam , mais do que nunca, como uma arma poderosa, David Lodge aborda com inteligência, profundidade e humor a "cultura das celebridades" e o consequente conflito entre a escrita - actividade solitária - e as exigências mediáticas."

No livro vemos Adrian a sucumbir várias vezes. Primeiro ao aceitar a sua auto-imposta isolação do mundo mediático para ir em auxílio de Sam. Sucumbe, de seguida, aos jogos de bajulação e elogios com que Fanny começa por o abordar. De novo sucumbe, aos diferentes sentimentos que a jornalista lhe impões, ao jogar com as suas fraquezas e inseguranças. No fim aprende uma grande lição... Que há sempre alguém melhor que nós para a primeira página de um jornal... Ainda que pelos piores motivos.

Recomendo vivamente este livro, não por o considerar de excepcional valor literário, mas sim pelo seu inestimável valor enquanto retrato de uma sociedade actual e vendida aos 15 minutos de fama.

Nota 4

sábado, 10 de outubro de 2009

A Vida na Porta do Frigorífico





"A Vida na Porta do Frigorífico"
Alice Kuipers
Editorial Presença
ISBN 9789722342469




A Presença lança agora o livro "A Vida na Porta do Frigorífico" de Alice Kuipers. O livro relata a relação, algo difícil, entre mãe e filha que, separadas pelas características das respectivas gerações, comunicam, principalmente por post-its deixados na porta do frigorífico. E é assim, graças aos pequenos pedaços de papel colorido, que as duas gerações se vão aproximando... Principalmente quando um recado em particular vem ameaçar a calmaria aparente dos dias das duas mulheres.

Pessoalmente não sou consumidora deste género de literatura light... E se, ainda assim, acho que a ideia por trás do livro é atraente e que, trabalhada com talento, poderia tornar este livro numa obra com potencial, a verdade é que o produto final ficou, na minha opinião, muito aquém das suas potencialidades. As páginas são quase um deserto de branco em que, muitas vezes, apenas uma pequena frase mancha de negro. Sendo que cada página representa um post-it muitas vezes temos páginas com um conteúdo tão vasto como "Mãe, não te esqueças da minha mesada. Claire". Ponto final. Página seguinte.

Uma boa ideia. Um livro pobre.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quase a chegar...




"Caim"
José Saramago
Editorial Caminho
ISBN 9789722120760




Esta entrada é dedicada a todos os que, como o meu pai, se deliciam com a escrita do nosso Prémio Nobel da Literatura.

Um ano depois do seu último romance, "A Viagem do Elefante", e seguindo a publicação do conjunto de entradas do seu blog "O Caderno", eis que Saramago volta às livrarias nacionais com "Caim", um livro que o autor já mencionara na sua última entrada do citado blog, a 31 de Agosto do corrente ano:

"Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. (...) Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem. Entretanto, terão aí o “Caim”."

Sobre o livro, que chega às lojas a 19 de Outubro, diz o "Público" de 27 de Agosto que ""Caim" é o novo romance de José Saramago, e Deus é uma das personagens principais " para, logo de seguida, e parafraseando a mulher do autor, Pilar del Río , acrescentar que trata sobre "a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos - ou talvez seria melhor dizer para exigir a outros - uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus".

Parece-me, pela descrição, que o novo livro não irá, em nada, defraudar as expectativas daqueles que, ao longo dos anos, se deleitaram com a escrita única de José Saramago!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pigmalião




Pigmalião
Bernard Shaw
Europa-América



O primeiro contacto que tive com esta história deu-se numa noite nos anos 90 em que, como era meu hábito, liguei a televisão na rtp2 para ver o programa "O filme da minha vida" onde, semanalmente, uma figura pública ia partilhar o filme que mais o/a marcara. A convidada dessa noite era a jornalista Maria Elisa, o filme... "My fair lady". Adorei o filme... Passei dias a cantar "Just you wait, 'Enry 'Iggins, just you wait... You'll be sorry but your sorry will be too late..."

A história, baseada no mito grego de Pigmaleão, relatava a história de um homem que, tendo decidido levar uma vida de celibatário, por não concordar com o papel que as mulheres representavam na sociedade e, mais particularmente, nas relações, acaba por se apaixonar, no mito, por uma estátua por si feita e que representava o ideal da perfeição feminina. No filme a estátua fora substituída pela beleza perfeita de Audrey Hepburn, no papel de uma pobre e pouco culta vendedora de violetas.

Em termos literários, a história da vendedora Eliza Doolittle, do professor de fonética Henry Higgins e do seu amigo (e opositor na aposta de transformar Eliza numa dama - pelo menos linguisticamente) Coronel Pickering, começou com a peça de teatro de George Bernard Shaw "Pigmalião", de 1913.

Esta edição, da Europa-América, é bilingue e, na versão inglesa, tem ainda as ilustrações de Feliks Topolski.

Recomendo a quem gostou do filme ou àqueles que, não tendo paciência para musicais, não querem, ainda assim, passar ao largo de uma boa história.
Nota 4

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rivalidade de egos





A Guerrilha Literária
(Eça de Queiroz/Camilo Castelo Branco)
A. Campos Matos
Parceria A. M. Pereira
EAN 9789728645601
ISBN 978-972-8645-60-1




Admito que tenho um lugar especial na minha biblioteca para as obras do Eça de Queiroz. Sim... Sei que não é fashionable e que o facto de ter lido os Maias, na praia, muito antes de ter de o fazer faz de mim uma aberração da natureza. Mas, ainda assim, admito... Adoro a escrita do Eça. Adoro a sua crítica social e intelectual, rio-me com o seu humor (que acho muito próximo ao famoso humor britânico) e considero a sua escrita de uma profunda e primorosa inteligência.

Quanto ao Camilo Castelo Branco... Bem... Digamos que o sentimento não é o mesmo. Sempre o achei, à falta de melhor descrição, lamechas e romântico ao ponto de ser enjoativo. Ainda assim estaria pronta a dar-lhe o mérito que merecia pelo seu contributo literário. Mas, ao ler o seu pequeno e revoltante livro "A Senhora Rattazzi" (Edição Fac-Similada, Edição/reimpressão: 2009, 54 Páginas, Calçada das Letras, ISBN: 9789899572843) onde ele expõe a sua posição em relação à liberdade pessoal e intelectual da mulher (era contra), a minha consideração por ele baixou consideravelmente... Principalmente porque passei a ver nele não só um homem de contradições mas, também, de hipocrisias (era a favor, literariamente, do amor puro e, no entanto, foi preso pela sua relação com uma mulher casada. Era contra o poder feminino mas Ana Plácido, o objecto do seu amor, era, para todos os efeitos, um nome a considerar no panorama literário nacional e uma ávida leitora, consultora e crítica dos vários autores da altura - incluindo Camilo).

Neste livro o autor aborda a rixa literária que opôs Naturalistas e Realistas (movimentos aos quais Camilo e Eça davam, respectivamente, a cara). Camilo, que não era estranho a este tipo de confronto, não se coibindo de dar a sua opinião menos favorável sobre os trabalhos de outros autores em hasta pública foi, no entanto, bastante comedido nesta guerrilha (talvez por respeito ao pai de Eça que foi o juiz que o ajudou no processo de adultério aquando da sua prisão). Eça foi, como sempre, irónico, inteligente e certeiro nas suas críticas não perdendo, no entanto, o respeito pelo autor mais velho.

O livro lê-se bem e, para quem estuda ou, simplesmente, gosta da história da literatura portuguesa pode ser uma preciosa ajuda para perceber uma altura e dois movimentos da literatura nacional.
Nota 3

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A complicada família real russa...




A Noite Branca de Sampetersburgo
Michel de Gréce
Bertrand Editora
EAN 9789722512015
ISBN 972-25-1201-3




Estando eu sem nada para ler (tinha acabado o último livro e, estando de férias, precisava de arranjar imediato substituto), e uma vez que já à muito não lia um romance histórico (género que admito gostar, se for bem escrito), peguei neste volume que já tinha comprado à uns meses numa feira mas que ainda não tinha conseguido lugar na minha mesa de cabeceira. À partida era uma aposta ganha. Tinha tudo para me agradar. O período da história que mais me agrada é o que vai do final do século XVIII até ao início do século XX (principalmente nas cortes portuguesa, inglesa e russa). Ora, este livro passa-se, precisamente, no seio da família real russa durante o século XIX... Infelizmente, tenho de admitir... Não gostei do livro! Quero dizer, a história é interessante, o autor está bem documentado... Mas... A verdade é que a maneira como o livro está escrito não é carne nem é peixe... Isto é, o livro é demasiado maçudo para ser um bom romance histórico (por vezes as descrições arrastam-se por páginas sem fim, descrições factuais, não romanceadas) e demasiado fantasioso para ser livro de história.

Quanto à história... É o relato da vida do grão-duque Nicolau Romanov, primo do czar, que, tendo-se envolvido com uma cortesã americana, por quem se perde de amores, acaba por ser apresentado a um mundo muito longe da sua realidade. Através de Fanny Lear (a amante) é apresentado a um grupo de jovens revolucionários. Amante da liberdade (que, na condição de realeza, não tem) Nicolau é facilmente convencido a unir-se ao grupo financiando-lhes, inclusivé, os golpes revolucionários. O que não se apercebe, até ser tarde demais, é que abre a porta não só aos revolucionários como também ao amante de Fanny que, com ela, acaba por roubar os diamantes do ícone religioso favoritp da mãe de Nicolau. O jovem acaba por confessar o crime que não cometeu e, humilhado, envergonhado e renegado pela família e pela amante, acaba por ir para o exílio, onde permanece até ao golpe que retirou do poder a sua família.

A história de Nicolau é verdadeira, rica em pormenores, tem jogadas de interesse e golpes, tem sedutores e seduzidos... Merecia ser tratada com mais empenho. Michel de Gréce, familiar do grão-duque, pode ter querido ser fiel ao seu antepassado mas, ao fazê-lo, acabou por, na minha opinião, sacrificar aquele que poderia ser um grande romance histórico.
Nota 2

domingo, 20 de setembro de 2009

O livro de uma vida...




Capitães da Areia
Jorge Amado
D. Quixote
EAN 9789722021449
ISBN 972-20-2144-3




Se me perguntassem qual o livro da minha vida teria de responder, muito provavelmente, este. Este livro fez-me chorar, por duas vezes; ao recebê-lo e ao acabar de o ler. O meu paivofereceu-me a história que Jorge Amado escreveu sobre os meninos de rua da Bahia quando eu tinha 13 anos para, segundo ele, me dar "uma nova visão da vida". Chorei! Não de emoção pela oferta e dedicatória, mas por birra... por pura parvoíce... porque queria um livro da Agatha Christie e não deste brasileiro de que nunca ouvira falar (ok, tinha visto a Tieta, mas o meu conhecimento de Jorge Amado começava e acabava aí). O que vale é que, na altura, as minhas birras eram de curta duração.

Nessa noite mergulhei no mundo de Pedro Bala, Pirulito, Volta Seca, Dora, Sem Pernas, Professor, Boa-Vida e todas as outras crianças que, sem família, se defendiam uns aos outros enquanto dormiam espalhados nos areais da cidade. Acabei o livro no dia seguinte. E, aí, o choro foi tão intenso que o meu pai, como me viria a confessar mais tarde, se arrependeu de me oferecer o livro. Mas há choros que não gostaríamos de impedir... que vêm de uma aprendizagem que não trocaríamos por nada.

Sempre vivi muito os meus livros... Embrenho-me na leitura e vejo e vivo tudo aquilo que está escrito. Acredito, inclusivé, que quem diz não gostar de ler o faz por não conseguir visualizar a palavra escrita. E aquele choro, aquele soluçar desesperado, era o choro de uma criança por outras crianças que já nem sabiam chorar. Descobri, nesta obra-prima da literatura lusófona, que existem crianças que, para além de uma família e uma casa, perderam também o luxo de sonhar, de rir, brincar, ser criança e, até, de chorar. Descobri que existem dores mais profundas que a morte e que a esperança e a fé no futuro é um privilégio que não está ao alcance de todos.

O livro é forte... As vidas nele descritas são duras, calejadas. Mas é um livro que aconselho a todos... Aos jovens que não têm consciencia de tudo o que têm, e aos adultos que se queixam da vida sem se lembrarem da dádiva que foi a sua infância.
Nota 5

sábado, 19 de setembro de 2009

70 anos de memórias




A Segunda Guerra Mundial
Martin Gilbert
D. Quixote
ISBN: 978-972-20-3874-4



Comemora-se, este ano, o 70º aniversário do início da Segunda Guerra Mundial e, para assinalar o facto, vários editoras publicaram neste último mês livros referentes ao tema.

Esta é a grande aposta da D. Quixote.

Do mesmo autor de outros bestsellers da área da história (como, por exemplo, "Winston Churchill, Biografia" e "História de Israel"), chega-nos agora este monstro literário de 1008 páginas. O fascínio de Gilbert pela Segunda Grande Guerra começou cedo, na sua infância, para ser mais exacta. Nascido em 1936, em Londres, Gilbert estava entre o grupo de crianças inglesas que, nove meses depois do rebentar da guerra, foi enviado para o Canadá, como medida de prevensão e segurança em relação às gerações mais novas. A recordação da viagem de navio, da sua fuga, permaneceu sempre viva na memória de Gilbert e manteve-se um alimento constante para a sua carreira de historiador e escritor.

Nesta obra, mais que um relato cronológico dos anos da guerra, Martin Gilbert, através de uma exaustiva pesquisa, mostra-nos não só a acção prin cipal como também os bastidores de uma época negra. Aborda, assim, não só a temática política e militar, mas também o lado secretivo (como a espionagem utilizada de parte a parte) e, mesmo, o lado civil da Segunda Grande Guerra.
A obra é excepcional, bem documentada e escrita mas (e há sempre um mas) o tamanho do livro não é convidativo. Não é apenas a sua extensão que é preocupante... É, também, o facto de, por ser um livro de capa mole, ser impossível a alguém que realmente o queira ler de o fazer sem partir a lombada (o que é uma lástima).

Novidade "Fantástica"!




O Mar de Ferro
George R. R. Martin
Isbn 9789896371357



Pois é, finalmente chega às lojas o mais recente volume, o oitavo, do autor que é considerado o herdeiro literário de Tolkien.
Tendo trabalhado como argumentista (o que o ajudou a, apesar do tamanho da sua obra mais conhecida, manter o ritmo e a sequência lógica da história de um volume para o outro), George R. R. Martin começou, em 1996, a trabalhar naquela que seria a obra mais emblemática da sua carreira, "As Crónicas de Gelo e Fogo".
Tal como o mestre, Tolkien, a mais valia de Martin é que, apesar de escrever histórias de puro género fantástico, a forma como escreve e a perfeição com que cria mundos verosímeis torna a acção plausível e mantém os seus leitores na expectativa do que acontecerá a seguir. Até a forma intrincada como criou o mundo em que se passa a acção se torna compreensível com a ajuda dos mapas que criou (também como Tolkien o fez).
E, brevemente, será ainda mais fácil para o leitor de visualisar o mundo fantástico de Martin, pois foi divulgado que a obra será adaptada para televisão pelo conceituado canal televisivo HBO (canal responsável, entre outras, pelas séries Roma, O Sexo e a Cidade, Sete Palmos de Terra, e Os Sopranos). Aliás, é já de conhecimento público, que o episódio piloto, será filmado ainda este ano em Belfast, na Irlanda do Norte.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Brevemente, nas livrarias

Pois é,... Estive a pensar como poderia dar um pouco mais de vida a este blog, um pouco mais de interesse, e concluí que, para além de dar a conhecer a minha opinião sobre os livros que vou lendo, posso começar, também, a apresentar alguns dos livros que sairão em breve para as lojas. Esta é a primeira dessas apresentações.


O livro que vou dar a conhecer é um livro que já folheei na versão original mas que ainda não tive o prazer (?) de ler. Escrito pelo autor canadiano William P. Young este é um romance que entra pelos caminhos misteriosos (para mim, pelo menos) da religião e da fé. O personagem principal, Mackenzie Phillips começa por, quatro anos antes da acção, levar três dos seus filhos a acampar no Oregon. Durante o tempo em que estão a acampar, e no seguimento de um incidente com os seus outros dois filhos, Mack deixa a filha mais nova, Missy, momentaneamente sózinha. Quando volta para o local onde deixara a menina não a encontra. A subsequente investigação leva à conclusão de que, não só, Missy foi raptada como terá, também, sido brutalmente assassinada numa cabana perto do acampamento. Quatro anos depois (ou seja, no presente) Mack recebe um bilhete, assinado Papa (nome pelo qual a sua mulher se refere a Deus) e, levado pela crença de que é, realmente, Deus que fala com ele, o homem dirige-se ao local onde, de forma tão dolorosa, perdera a filha. Mais do que um livro de mistério (pela tentativa de descobrir o que aconteceu à sua filha), este é um livro que tenta responder à questão "se Deus existe e é bondade, porque é que nos faz sofrer?". Admito que a vertente religiosa do livro mo fez pousar rapidamente. Mas, quem sabe, se agora, traduzido e editado pela Porto editora, não lhe volto a dar uma oportunidade?... E, daí, talvez não.












ISBN: 978-972-0-04178-4


Lançamento: Outubro de 2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A meio da noite dois lados cruzam-se... para sempre.





Sem Sangue
Alessandro Baricco
Biblioteca Sábado (tradução da D. Quixote)
EAN 5602831080654
ISBN 978-84-613-1615-1




Numa noite, no silêncio do campo, Manuel Roca identifica, no som de um automóvel a passar na estrada, a proximidade dos seus inimigos. Com tempo limitado para agir, resta-lhe esconder os seus bens mais preciosos... os filhos. Ao ouvir a discussão entre o pai e os seus opositores (Salinas, Gurre e Tito) o rapaz não resiste em sair do seu esconderijo para vir em auxílio do pai. De dentro do alçapão onde o pai a deitou e de onde não se mexe, Nina, a rapariga, assiste à morte do pai e do irmão. Impotente, mas quase resignada, Nina espera, em posição fetal, que tudo volte ao silêncio para finalmente poder sair da sua prisão. No entanto os seus planos podem correr o risco de não se cumprirem quando os assassinos da sua família iniciam uma busca na casa à sua procura. O mais jovem, Tito, encontra-a mas, ao invés de a entregar aos seus cúmplices, há algo na serenidade da jovem que o leva a calar o seu paradeiro.

Anos mais tarde uma mulher envelhecida, mas ainda bela e altiva, dirige-se a um quisque para comprar um bilhete de lotaria. Ao atendê-la, ao olhar nos olhos da desconhecida, o cauteleiro reconhece a menina que décadas antes ajudou a esconder. Tito e Nina (que entretanto viveu várias vidas e teve inúmeros nomes) reencontram-se e, contando a sua versão de uma mesma história à mesa de um café, ambos tentam, finalmente, tirar algum sentido aos acontecimentos que partilharam em jovens e a tudo o que aí adveio.

Um livro que fala de vingança, de guerra, de morte, mas também de perdão, de aceitação e de resignação. O livro é pequeno, não mais que um conto, e lê-se num só fôlego.
Nota 4

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Cartas a um jovem poeta




Cartas a um jovem poeta
Rainer Maria Rilke
Edições Quasi
ISBN 978-989-552-388-7
EAN 9789895523887




Franz Xaver Kappus. Um nome que passa despercebido ao radar de (quase) todos. E, no entanto, é o nome de alguém cujo contributo para a literatura é, inquestionávelmente, inestimável. É ele o (aspirante a) jovem poeta que foi o receptor das dez missivas do (grande) Rainer Maria Rilke. Na altura em que a correspondência começou, início de 1903, Kappus era um jovem de 19 anos que frequentava a Academia Militar mas que alimentava a aspiração de se tornar poeta. Assim, enviou algumas das suas criações a alguns dos mais ilustres escritores da época tendo recebido resposta de Rilke, um autor com cerca de 8 livros publicados. É provável que, ainda que esperançoso, Kappus não estivesse à espera que uma personalidade como Rilke se disposesse a responder-lhe mas a verdade é que a primeira carta do jovem levou a uma correspondência amigável entre os dois homens entre o início de 1903 e o fim de 1908. Ainda que aguardando conselhos ou, melhor ainda, críticas ao seu trabalho literário, Kappus ficou logo ao corrente da opinião de Rilke sobre a corja de críticos: "Nada está mais longe de tocar numa obra de arte do que palavras críticas: delas resultam apenas mal-entendidos mais ou menos felizes". Assim, no decorrer da sua correspondência, o conceituado autor mais que críticar, ou mesmo guiar, o jovem nas suas aspirações, vai, isso sim, partilhar com ele pontos de vista, opiniões e, mesmo, os conhecimentos que adquiriu no decorrer da suas primeiras três décadas de vida. Essa partilha torna este livro um excelente livro de "passagem", uma bíblia para jovens que estejam prestes a entrar na idade adulta (diria que um óptimo conselheiro para jovens entre os 14 e os 17 anos - ainda que só o tenha lido nos meus, jovens, 30 anos).

"Esta vida não pode ser medida no tempo, o tempo não se divide em anos, e dez anos não são nada. Ser artista é não calcular e não contar, é amadurecer como a árvore, que não comanda a seiva e que enfrenta tranquila as tempestades da Primavera sem recear que o Verão não chegue. O Verão chegará. Mas apenas para quem esperou pacientemente, para quem aqui permaneceu como se à sua frente se estendesse, sem cuidados, silenciosa e imensa, a eternidade. Todos os dias aprendo esta lição, aprendo-a pelo sofrimento que aceito com gratidão: a paciência é tudo!"
Nota 4

sábado, 5 de setembro de 2009

Uma Morte (Não Muito) Suave



Uma morte suave
Simone de Beauvoir
Livros Cotovia
ISBN 978-972-795-276-2





Será a morte de alguém que nos está próximo e que amamos mais suportável se tivermos tempo para nos habituarmos à ideia e nos conformarmos? E se essa pessoa for primordialmente racional, como é o caso da autora em questão, será mais fácil ou, mesmo, possível colocar os sentimentos ao largo e limitarmo-nos a assistir e analisar a iminente morte de alguém, mesmo que esse alguém seja a nossa mãe? Simone de Beauvoir parece estar convencida, no início deste pequeno livro, de que será capaz de se manter uma simples espectadora de uma fatalidade universal, não a vendo como algo pessoal e intrinsecamente ligada à progenitora.
O livro começa com um telefonema a avisar Simone de que a sua, idosa, mãe caiu em casa e partiu o fémur, tendo sido internada. A autora apressa-se a juntar-se à enferma, numa atitude de quase desprendimento. Na verdade uma relação algo tensa entre as duas proporciona a desculpa perfeita para esta atitude da autora. No entanto, com o decorrer do livro, e com o surgimento de complicações na saúde de Françoise de Beauvoir, vemos a racional escritora a ver as suas convicções abaladas ao mesmo tempo que se apercebe da fragilidade da sua mãe e, consequentemente, da sua. Vemos como Simone se dá conta da sua surpresa pela forma como o desenrolar das situações a apanha desprevenida e da sua estupfação ao reparar que mais facilmente chora pela doença da mãe que pela morte do pai.
É um livro (quase) depressivo que nos faz analisar os nossos sentimentos, os nossos medos, as nossas convicções para no final nos levar a concluir, como Simone de Beauvoir, que o ser humano é um animal que se deixa reger pelos seus sentimentos o que lhe torna impossível analisar friamente o aproximar da morte.

Nota 3

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Duas metades de uma mesma laranja... Orgulhosa e Preconceituosa.




Orgulho e Preconceito
Jane Austen
Publicações Europa-América
EAN 5601072510340
ISBN 972-1-04084-3




"É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa."
A frase de abertura deste romance, para além de mostrar o potencial satírico da autora, dá o mote para toda a obra. Descobrimos, logo na primeira frase, uma panóplia de raparigas solteiras, potenciais esposos (ricos) e um sem fim de mães dispostas a empurrar a prole para os braços de qualquer homem que traga dinheiro e pretígio à família.
É, pois, irónico que Jane Austen tenha escolhido para heroína desta história uma jovem que não liga a convenções, bolsas recheadas, casamentos impostos ou, mesmo, aos "nervos da sua pobre mãe". Elizabeth Bennet é a segunda de cinco irmãs e, não tendo o carácter calmo e, mesmo, fraco da irmã mais velha (a mais bela e promissora da família), nem a seriedade da terceira ou a leviandade das duas mais novas, é a personagem feminina mais inteligente de toda a história. De carácter forte e cultura superior aos que a rodeiam, Elizabeth tem consciência que, na sua condição de mulher, a inteligência é um handicap que, provavelmente, porá em risco a sua oportunidade de alguma vez vir a casar. Assim, promete a si própria só o fazer por um verdadeiro amor o que, no seu caso, mais que uma vida confortável junto a um homem de posses, significa uma constante debate de ideias com um homem que não se sinta ameaçado pela inteligência da mulher que tem a seu lado. E, contra todas as expectativas (das personagens, pelo menos) esse homem parece ser o frio e orgulhoso Mr. Darcy.
Darcy é um dos homens mais ricos de Inglaterra o que, socialmente, o coloca acima de todas as personagens do livro (à excepção de sua tia - uma Lady), facto que ele sabe e que o leva a desdenhar todos os que com ele se cruzam e que não façam parte do seu - restrito - grupo de amigos. Desdém esse com que ele brinda Elizabeth logo no primeiro encontro. No entanto, com a convivência, descobre a sua tenacidade, ironia e crítica constante uma agradável excepção à mulher puramente decorativa do seu extrato social. Contra todas as previsões - e, mesmo, contra a sua vontade - apaixona-se pela jovem.
Mas o amor entre os dois não pode ser tão fácil. Serão precisos vários mal-entendidos, outros pretendentes, rixas familiares e, até, a desgraça de uma família, até que os dois baixem as guardas e se aproximem. Quanto a nós, leitores, apesar de sabermos desde o início como a história vai acabar, aguardamos sempre em suspense para saber como acabará a história de Elizabeth e Darcy.
Como se nota, adoro este livro. Já o li e reli variadas vezes durante os anos em que ele faz parte da minha vida e estou certa que o irei reler muitas mais vezes. Logo, não posso deixar de o aconselhar a toda e qualquer pessoa que me peça opinião, nem de deixar de afirmar que, na minha modesta opinião, este é um dos melhores livros de sempre e uma presença obrigatória em qualquer biblioteca que se preze.
Nota 5

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Lado privado de gente pública





Secret Lives of Great Authors
Robert Schnakenberg
Quirk Books
EAN 9781594742118
ISBN 978-1-59474-211-8



Robert Schnakenberg reuniu, nesta obra, factos menos conhecidos e mais escabrosos de autores consagrados. Como ele afirma no seu prólogo, não são os autores sensatos, calmos (até aborrecidos) como, entre outros, Jane Austen, que lhe interessam nesta obra. São os bêbados, os conflituosos, os drogados, os promíscuos, os insestuosos, os depressivos... Todos os problemáticos que tornam este um livro divertido de se ler (à semelhança das revistas cor-de-rosa temos a impressão de estar a bisbilhotar a vida alheia... e adoramos esse voyeurismo socialmente aceitável).

Assim, para além dos problemáticos conhecidos, como Hemingway, Virginia Woolf, Charles Dickens, Lord Byron, Jack London, Tolstoi ou F. Scott Fitzgerald, encontramos problemáticos que conseguiram disfarçar os seus problemas como Louisa May Alcott, as irmãs Brontë, Tolkien, Agatha Christie e W. B. Yeats, entre muitos outros.

Um livro light, divertido, e uma óptima solução para os que querem saber da vida alheia sem perder a pose intelectual.
Nota 4

sábado, 15 de agosto de 2009

O Tigre Branco




O Tigre Branco
Aravind Adiga
Editorial Presença
EAN 9789722341004
ISBN 978-972-23-4100-4




O primeiro romance do autor natural de Madras ganhou, por unanimidade, o Man Booker Prize de 2008. Ainda que, muito raramente, me deixe guiar pela atribuição de prémios nas minhas escolhas literárias a verdade é que a possibilidade de conhecer "uma Índia ainda muito pouco explorada pela ficção, a Índia negra, violenta e exuberante das desigualdades socioculturais endémicas" atraiu a minha atenção. Admito que gostei.

A história, mais que a biografia do narrador, Balram Halwai (Munna, para a família), é a biografia de um país em constante luta consigo próprio. Escrito em formato de cartas ao longo de sete noites, Balram tenta explicar ao Primeiro-Ministro da China, através do seu próprio percurso de rapaz pobre de uma pequena aldeia até à sua carreira como empresário na cidade de Bangalore, a maneira de subir na vida na Índia. Ao contrário do que se possa pensar não é um relato de trabalho esforçado, poupança e frugalidade... É, antes de mais, um retrato duro e cruel de uma sociedade de contrastes sociais em que, na maioria das vezes, o receio e a superstição são, mais do que a honestidade, o maior obstáculo à acção do pequeno em relação ao grande (leia-se pobre e rico). Demonstra uma nação distante do retrato romantizado da Índia, uma nação de discrepâncias sociais, corrupção, suborno e chantagem.
Nota 4

domingo, 9 de agosto de 2009

Todas as cartas de amor são ridículas...




Cartas de Amor a Ophélia Queiroz
Fernando Pessoa
Ática
EAN 9789726655466
ISBN 978-972-665-546-6




O génio literário que afirmava que todas as cartas de amor são ridículas demonstra, neste livro, ser um ávido produtor das mesmas. Notamos nelas a(s) personalidade(s) que o tornou conhecido (coloco os plurais entre parêntesis uma vez que os seus heterónimos não estão excluídos das missivas, que por mera referência, quer como autores das mesmas, ou de partes delas) e, por vezes, até a depressão e o desânimo que por vezes atacavam o poeta. Encontramos, também, muitas e variadas provas que parecem corroborar a impressão pública de Fernando (Nininho, como ele assina por vezes) das cartas dos apaixonados.
No entanto, para além das esperadas tiradas românticas, podemos encontrar neste conjunto de missivas, provas suficientes da superioridade literária, irónica e crítica de um dos maiores vultos da literatura nacional, como se pode ver nos seguintes excertos:

"Não te admires de a minha lettra ser um pouco exquisita. Há para isso duas razões. A primeira é a de este papel (o único acessível agora) ser muito corredio, e a penna passar por elle muito depressa; a segunda é a de eu ter descoberto aqui em casa um vinho do Porto esplendido, de que abri uma garrafa, de que já bebi metade. A terceira razão é haver só duas razões, e portanto não haver terceira razão nenhuma. - Álvaro de Campos, engenheiro."

"Adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo, para descansar o espírito. Assim fazem todos os grandes homens - pelo menos quando têem - 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde metter a cabeça."

"Vi-a, uma das vezes, só de soslaio, e os desgraçados que usam óculos têem o soslaio imperfeito."

Este é um livro que recomendo não só aos leitores que já gostam de Fernando Pessoa, como também aos que querem conhecer mais do homem por trás das letras (para o que conta muito o prefácio assinado por Ophélia), mas também àqueles que, querendo iniciar a aprendizagem do autor, se sentem algo assustadas com a genialidade (e multipersonalidade) do poeta (talvez conhecendo o lado mais frágil do homem consigam abstrair-se da grandeza do autor).
Nota 3

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Cenário idílico...





Venice
From Canaletto and Turner to Monet
Martin Schwander
Hatje Cantz
EAN 9783775722414
ISBN 978-3-7757-2241-4




Veneza é já à muito, e ainda será futuramente, considerada uma das cidades mais românticas, belas e idílicas do Mundo. Não é, pois, surpresa que, ao longo dos séculos, vários têm sido os artistas que aí se dirigem para beber inspiração e embuir-se do espírito veneziano.

A Fondation Beyeler, ciente desse fascínio provocado pela cidade dos canais à sensibilidade artística dos pintores ao longo dos anos, reuniu numa belíssima exposição, o trabalho de doze artístas europeus e norte-americanos. Temos, neste livro (que actua como um catálogo da citada exposição), a oportunidade de ver Veneza pelos olhos dos pintores William Turner, Renoir, Monet, Canaletto (natural da cidade - daí o nome, que significa "pequeno canal"), Manet, Francesco Guardi, Whistler, John Singer Sargent, Odilon Redon, Anders Zorn, Fragiacomo e Paul Signac.

É um livro belíssimo, uma visão artística de uma das mais belas cidades do Mundo.
Nota 4

sábado, 1 de agosto de 2009

A Relíquia, de Eça de Queiroz





A Relíquia
Eça de Queiroz
Livros do Brasil
EAN 9789723808995
ISBN 972-38-0899-4




"Diz-me meu pai que se abriu, ou vai abrir, esse famoso concurso da Academia (...) eu pretendo entrar nesse concurso, com a Relíquia: não porque haja sequer a sombra fugitiva duma probabilidade, mais magra do que eu, de que me seja dado o conto (...) mas porque desejo gozar a atitude da Academia diante de D. Raposo." (carta a Ramalho Ortigão, 14 de Junho de 1887).
O autor, como se pode ver por esta carta, considerava esta sua obra de baixa qualidade e pouco valor, e a vontade que o levou a concorrer foi mais a de provocar e chocar (principalmente Pinheiro Chagas, presidente do concurso e seu "inimigo público") do que a esperança de vir a ganhar o prémio. Eu, pessoalmente, Adoro este livro (recomendo-o a todos os que conheço e que, querendo conhecer a obra do Eça não querem abraçar a centena de páginas de descrição do Ramalhete), acho-o uma obra prima da literatura portuguesa e um excelente exemplo do humor contudente do autor.
O livro conta-nos a história de Teodorico Raposo (o D. Raposo da carta a Ramalho), um jovem que, vivendo às custas de uma velha e beata tia, tenta, aconselhado pelo amigo Dr. Margaride, arrancar à titi o máximo de dinheiro possível (e, se assim o conseguir, o patrocínio para a Grand Tour europeia que todos os jovens de bem ansiavam fazer). Conseguindo chegar à tia através da fé desta, convence-a a pagar-lhe uma viagem à Terra Santa onde ele, em seu nome, irá buscar uma Relíquia para a crente senhora. Com a viagem ganha, e apesar da obrigação religiosa, Teodorico embarca numa Tour mais comedida mas, nem por isso, menos imoral. Durante o percurso conhece (muito apropriadamente, de forma bíblica) Mary, uma jovem inglesa que se entrega de corpo e alma (principalmente de corpo) ao portuguesinho. Na hora do adeus, de forma a que ele se lembre sempre da sua Mary, a inglesa entrega-lhe o seu négligé, num embrulho. Claro está que, para a história responder a todo o seu potencial, a restante viagem troca as voltas a Teodorico que, de regresso a casa, e em frente a uma plateia onde se contam os mais altos dignatários religiosos da terra, entrega à titi a Relíquia da Terra Santa... a camisa de dormir de Mary. A tia, furiosa, expulsa-o de casa e, mais tarde, ao morrer, deixa todos os seus bens ao padre Negrão, que não perde tempo em colocar em casa uma mulher, Amélia, uma antiga amante de Teodorico. Este apercebe-se então do seu maior erro... Não ter sido cínico, hipócrita e manhoso o suficiente para se igualar aos religiosos que cercavam a titi Patrocínio.
Este é, sem dúvida, um dos livros da minha "biblioteca de sonho".
Nota 5

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Duas vozes sonantes, uma mesma mensagem.





Cartas de Amor
Anaïs Nin & Henry Miller
Caleidoscópio
EAN 9789896580254
ISBN 978-989-658-025-4




Ao contrário do que o título poderia sugerir esta não é (apenas) uma recolha de cartas de teor amoroso entre dois vultos da literatura mundial. É, também, um relato de duas vidas, sendo que, na junção/relação das duas, tomamos, também, conhecimento, da individualidade de cada uma. É um trocar de ideas, de inspirações. É, acima de tudo, o relato de uma amizade que deu origem a um amor e que, uma vez terminadas as aspirações românticas de parte a parte, manteve-se, até ao fim, a amizade.
Todos, ou quase, já ouviram, pelo menos, falar do triângulo Anaïs-Miller-June (o que, sendo extremamente injusto para Hugh, marido de Anaïs, que se viu imediatamente afastado da equação, acabou por se tornar quase como a santíssima trindade da literatura e da vivência erótica/sensual). Aqui, neste livro, quase nos esquecemos dessa carga sexual da relação dos dois autores, sentindo, perante nós, uma relação de partilha, confidência, companheirismo e, até mesmo, de auto-ajuda entre um homem e uma mulher.
Mas não se sintam defraudados… Também não faltam cartas de amor.
Nota 3

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Regresso ao Passado!




Pezinhos de coentrada
Alice Vieira
Casa das Letras
EAN 9789724616933
ISBN 972-46-1693-2




Este foi, definitivamente, um regresso ao passado! Não ao da autora, ou da sua escrita, mas ao meu, através da visita a uma das escritoras que marcaram a minha infância.
Desde miúda que gosto da escrita da Alice Vieira. Em pequena mergulhei na crise existencial de Abílio e da sua vontade de mudar de nome em "Viagem à roda do meu nome", e deliciei-me com o amor (e o desgosto) sénior em "Às dez a porta fecha" (provavelmente o livro de Alice de que mais gostei), entre outros. Sentia saudades! Já por várias vezes peguei em livros que a autora escreveu em parceria com outros grandes nomes da nossa literatura, mas arranjava sempre desculpa para os deixar na parteleira. Até que percebi... Eu não queria a Alice Vieira como co-autora de um livro. Eu queria um livro com a essência da Alice Vieira... Só que para adultos.
Não me decepcionei. As crónicas e os contos têm, todos eles, o cunho pessoal, a inteligência, o humor e, por vezes, a acidez da autora que me seduziu na infância. A apontar algo negativo (e, pelo menos eu, quanto mais gosto mais dou por mim a ver as coisas com olho crítico, sempre na expectativa da perfeição) teria de referir que o tamanho limitado das histórias impedem a autora de trabalhar as personagens como tão bem sabe fazer. Mas, espero, que Alice venha a colmatar essa falha lançando (brevemente) um romance para as gerações que, tendo crescido com ela, já estão nos intes e intas.
De qualquer forma, acho que este é um livro a ser saboreado por todos aqueles que, em miúdos, se deixaram apaixonar pelos livros de uma senhora chamada Alice Vieira.
Nota 3

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Conflito de gerações socialmente (in)correcto.




O Baile
Irène Némirovsky
Difel
ISBN: 972-29-0180-X
EAN: 9789722901802



Sinopse

Os Kampf, acabados de transpor o limiar da opulência devido a uma miraculosa jogada de Bolsa, decidem dar um baile para se lançarem na sociedade. Antoinette Kampf tem catorze anos e sonha estar presente na grande ocasião, mesmo que por breves instantes. No entanto, Mme. Kampf toma a irrevogável decisão de não permitir a presença da filha, já suficientemente crescida para atrair sobre si olhares de eventuais admiradores.
Antoinette, revoltada e em desespero, vai vingar-se com naturalidade e sem premeditação.
Os temores trágico-cómicos de arrivistas que recebem pela primeira vez pessoas que desprezam e que nutrem por eles o mesmo tipo de sentimento, a rivalidade mãe-filha que finalmente se manifesta a pretexto de uma frivolidade, a amarga solidão de uma criança que já deixou de o ser, tudo isto nos é oferecido por este livro fascinante e perturbador.
O Baile foi adaptado ao cinema, com Danielle Darrieux no principal papel.



Nas 74 páginas que compõem este pequeno livro, a autora leva-nos ao encontro de uma situação fundamental na relação entre mãe e filha; quando o declínio social e pessoal da primeira se cruza com a ascenção da segunda dando-se o equilíbrio na relação das duas.
A história centra-se na família Kampf, composta pelo pai, pela mãe e pela filha de catorze anos, que, graças a jogadas de sorte na bolsa, consegue ascender à alta sociedade parisiense. Na sua tentativa constante de esconder as raízes humildes, ao mesmo tempo que procuram integrar verdadeiramente a classe a que ascenderam, os Kampf decidem dar um baile para o qual convidam duzentas das personalidades mais emblemáticas da sociedade de Paris. Antoinette, a filha, só pensa em, também ela, assistir a tão faustosa festa mas a mãe, Rosine, na esperança de ter agora as atenções que não teve em jovem (e pobre), e vendo na juventude e beleza da filha uma ameaça ao seu desejo, proíbe a presença da rapariga no baile. Antoinette, motivada pelo rancor, pela raiva e pelo dramatismo característico da idade decide vingar-se... de uma forma que os seus pais nunca esquecerão.
Nota 3

domingo, 12 de julho de 2009

A rapidez de uma vida na lentidão de um dia.






Vinte e quatro horas na vida de uma mulher
Stefan Zweig
Editora Esfera dos Livros
ISBN 9789896261108



Vinte e quatro horas são o bastante para deitar por terra a reputação de uma mulher... Para ultrapassar essa perda, por vezes décadas não são suficientes.
O livro começa com o choque social de uma mulher casada que foge de uma estância de veraneio com o amante, jovem, deixando para trás o marido e as filhas. Nas áreas sociais da estância, à hora das refeições, do chá ou, mesmo, do ocasional jogo de cartas, murmura-se o nome da adúltera, enquanto, demonstrando pena pela família, se ostenta o orgulho da superioridade moral de cada um. Só um jovem não condena... Só este parece aceitar a imprevisibilidade do amor. E é a ele que a mais velha hóspede, a matriarca do grupo, o pilar de justiça e rectidão moral em que os outros se apoiam, escolhe confessar o seu pecado... Que, também ela, já amou fora do casamento... Acabando esta por ser a confissão das 24h mais marcantes da sua vida.

sábado, 4 de julho de 2009

A escuridão da alma humana não tem limites...





O poder das trevas
Leon Tolstoi
Teatro







Quão baixo pode o ser humano descer, quando guiado por uma ambição desmedida? Tolstoi, nesta brilhante peça de teatro dá-nos a resposta... Desce até onde tiver de descer! Independentemente dos caminhos que tiver de percorrer.
A história passa-se na vida e na casa de Piotr, aldeão rico casado em segundas núpcias com Anisia, uma mulher vaidosa e ambiciosa, dez anos mais nova que o marido. Logo de ínicio percebemos que o destino de Piotr está marcado... Não será uma vida longa. Decisão essa tomada pela sua mulher assim que esta se apaixona por Nikita, um criado na casa do marido, jovem de 25 anos, com pretensões a don juan, que encontra na patroa uma forma de ascender a outra sociedade. Assim, e com a ajuda de Matriona, mãe de Nikita, Anisia consegue livrar-se do encargo do marido, podendo assumir publicamente a relação com o amante. Como se o fantasma da morte de Piotr não fosse o suficiente para ensombrar a felicidade conjugal do casal, o facto de terem de afastar Akulina, filha do primeiro casamento de Piotr, a quem a súbita morte do pai e subsequente relação da madrasta não parecem coincidência, bem como o aparecimento de uma antiga amante de Nikita e respectivo filho, faz com que o casal enamorado vá descendo cada vez mais, demonstrando uma falta de moralidade apenas comandada por uma ambição desmedida.
Mas será que se consegue calar uma consciência que grita em agonia?
Nota 5

domingo, 28 de junho de 2009

Pode o Amor ser ridículo?




The Rape of the Lock
Alexander Pope
Hesperus Poetry
ISBN 1-84391-092-6



Mesmo uma apaixonada pela literature, como eu, encontra, ocasionalmente, no seu percurso literário, livros que a fazem abanar a cabeça em descrédito. Este é um exemplo disso mesmo. Tendo acabado a leitura (imposta) do poema abanei a cabeça e pensei, para mim mesma, que o livro era... ridículo. Não acreditei que tinha acabado de desperdiçar algum do meu valioso tempo com tal história. Mas agora, mais calma, vejo as coisas a uma nova luz. Quero com isto dizer que sim, a história é ridícula (absurda, mesmo), mas agora acredito ser esse o objectivo do autor.
Tendo a obra sido "encomendada" a Pope pelo seu amigo John Caryll, o poema relata o crime de Lord Petre que, apaixonado por Miss Arabella Fermor, teve a audácia de lhe cortar um canudo de cabelo (à laia de talismã) provocando, com essa acção, um afastamento gélido entre a sua família e a da sua amada. Assim, e a pedido do seu amigo, Alexander Pope escreveu o poema mostrando quão ridícula era a contenda familiar, ao mesmo tempo que aproveita para parodiar os poemas épicos.
Assim, e de acordo com a obra, vemos que o canudo de cabelo tem "presença própria" e que o seu roubo foi permitido e, mesmo, instigado por seres, espíritos e entidades sobrenaturais que asseguravam a segurança e castidade não só do canudo bem como da sua proprietária. E, para provar o lado divino do objecto de culto capilar, vemos como este, no final do livro, sobe aos céus, tornando-se uma constelação!!!
No fundo é como se Pope procurasse desculpar Lord Petre afirmando que as acções tomadas por este último lhe foram impostas por terceiros e que, para o apaixonado, o motivo de discórdia é um objecto de culto e adoração-
O livro é ridículo. A história que ele conta é absurda. Mas, afinal, o episódio que lhe deu origem também o é!
Nota 2

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Jornada para a Noite... A caminho do fim...






Jornada para a Noite
Eugene O’Neill
Livros Cotovia
ISBN 972-9013-95-0





Peça de teatro de referência e obra autobiográfica do autor norte-americano, esta é uma das obras primas da dramaturgia mundial.
A peça inicia-se, às 8h30 da manhã, na casa da família Tyrone (cenário, aliás, de toda a acção) e decorre no espaço de um dia, durante o qual nos inteiramos dos amores, ódios, fraquezas e aspirações de cada membro da família. E que família...
Primeiro temos James Tyrone, o patriarca, um actor que, tendo obtido sucesso com um papel, se ressente com o facto de isto o ter restringido profissionalmente. Tendo sido abandonado pelo seu pai quando era ainda criança (o que o obrigou a se auto sustentar) tem uma ética de trabalho muito vincada e é bastante agarrado ao dinheiro.
Mary Tyrone, sua mulher, é morfinómana, com um vício de duas décadas. Ainda que consiga, esporadicamente, afastar-se da droga, a convivência com a sua família acaba sempre por levá-la a recair no vício (como constatamos ao longo da peça).
Jamie Tyrone, o filho mais velho, é um bon-vivant. Alcoólico e com uma fraqueza pelo sexo oposto, não tem ambições nem é capaz de seguir uma vocação, acabando por viver à custa dos pais (que despreza).
Edmund Tyrone, o filho mais novo, é romântico e um sonhador. Descobre que tem tuberculose e que terá de ir para um sanatório o que o faz entregar-se à bebida (fraqueza que partilha com o pai e o irmão). A vontade (imposta por si mesmo) que tem em acreditar que a mãe está livre do vício é proporcional à vontade (a que se obriga) em acreditar que ele próprio se irá curar.
Durante o decorrer de um único dia vemos, quase como no decorrer de uma vida, a inevitabilidade de cada um cumprir o seu destino até que a noite, como a morte, chega para os envolver.
Uma peça dramática brilhantemente traduzida e prefaciada por Jorge de Sena.
Nota 4