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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Homem de Giz

Agora que acabaram as festividades e a necessidade de nos envolvermos no manto quente e confortável da companhia de familiares e amigos, chegou a altura de nos isolarmos na leitura de livros cujo negrume rivaliza com o dos dias de Inverno.   Eis que, como que seguindo a deixa, a Planeta decide começar 2018 com o lançamento de “O Homem de Giz”.  Recebi, na semana de Natal, uma cópia de avanço deste Thriller Psicológico que afirma, de uma forma que eu julguei algo arrogante, ser “o livro do ano 2018”.  Pfff!
 
 
No dia 24 de Dezembro comecei a leitura.

Dia 25, depois do almoço da praxe em casa dos pais, voltei à carga.

Dia 26 regressei ao trabalho com o meu exemplar (já bastante manuseado) dentro do saco para dele tirar proveito nas pausas de refeição.
 

 Entrei em 2018 com o livro do ano já lido! (um livro lido numa semana - o que, para uma mãe de dois filhos pequenos é um feito considerável!).
 
Sim, a afirmação pode ser arrogante, mas considerando o conhecimento que tenho dos clientes que frequentam a minha livraria, julgo que seja correcta.  A verdade é que, para grande parte da família leitora, o mistério de uma boa história policial ou thriller é motivo mais que suficiente para manter a luz do quarto acesa pelas horas nocturnas adentro, mesmo sabendo o quanto isso nos custará na manhã seguinte…  “O Homem do Giz” vai ser responsável por muitas olheiras em 2018!

A história, narrada na primeira pessoa por Eddie Adams, vai intercalando os acontecimentos da morte de uma jovem em 1986 com o ponto em que as testemunhas estão em 2016.  Eddie (ou Ed, como chamam agora ao homem de 42 anos) vai-nos guiando pela vida do seu grupo de 5 amigos com 12 anos de idade e, mais amargamente, pela forma como as vicissitudes da vida marcaram uma separação entre alguns membros do grupo e uma existência quase isolada para outros.  Na verdade, e apesar de ser um Thriller, há relativamente poucas mortes durante os relatos de Eddie…  O grafismo (excepto nos capítulos finais) é pouco.  O desconforto que sentimos, esse, é enorme!

Há algo de particularmente constrangedor, um mal-estar latente, sempre que uma história é contada pelos olhos de uma criança.  Uma criança que, com os amigos, encontra o corpo desmembrado de uma jovem no bosque junto à aldeia onde vive.  Uma criança que vive numa casa a cair aos pedaços com um pai jornalista e uma mãe que trabalha numa clínica de abortos.  Uma criança que fala, na primeira pessoa, de bullying.  Uma criança que vê um acidente numa feira de diversões e que salva a vida de uma jovem com a ajuda do novo professor da escola…  O “Homem de Giz” (assim apelidado pelas crianças pelo facto de ser albino).  Uma criança que vive as alterações da idade com intensidade.  Uma criança que, possivelmente, não é de confiança…
 
“O Homem de Giz” não é um livro com descrições macabras ou de violência extrema (excepto, talvez, no final).  Mas é um livro que nos mantém em suspense, desejosos do novo desenlace, da próxima peça do puzzle.  E o final...  Não desaponta!

A imprensa internacional não deixou passar o quanto “O Homem de Giz” faz lembrar o conto “O Corpo” de Stephen King Em "O Corpo", que viria a ser adaptado ao cinema com o título "Conta Comigo" e com River Phoenix no elenco, King conta-nos a história de quatro rapazes que se aventuram nos bosques em busca de um jovem desaparecido e de como a sua aventura acaba por se tornar um ritual de passagem da infância à idade adulta, e o início de perda da inocência.  E sim, há paralelos, mas eu, nestas coisas das comparações, sou sincera...  Acho sempre de extrema pressão para o comparado.  C. J. Tudor há-de, se este livro é prova de algo, formar nome por si própria no mundo do Thriller.  E vai ser bem sucedida.  Se precisava de começar este percurso sendo comparada com o Rei do Terror?  Não!  Apenas porque, à semelhança do que acontece comigo sempre que alguém é comparado à Agatha Christie, os fãs de Stephen King vão repudiar a comparação com um enérgico abanar de cabeça e revirar de olhos.  Simplesmente porque, autores como King ou Christie construíram o seu legado literário ao longo de anos e é humanamente impossível alguém conseguir atingir os seus níveis de qualidade numa primeira tentativa. 

Por isso peço, leiam este livro sem tentar retirar comparações, sem procurarem outro escritor nas páginas de "O Homem de Giz"...  Mas façam um favor a vós próprios:  leiam este livro!

(E pensar que tudo começou com um balde de paus de giz que alguém ofereceu à filha da autora como prenda do seu segundo aniversário...)
 
 
Nota 4

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Dar a palavra aos humoristas










Gosto muito de ler biografias, mas, por norma, fico-me por membros da realeza ou autores que já não estão entre nós.  No entanto recentemente dei comigo a ler a autobiografia de 3 humoristas britânicos (é raro ver televisão portuguesa, pelo que tomo conhecimento de pessoas que, de outra forma, nunca ouviria falar).


1 - A primeira autobiografia é "Bonkers - my life in laughs" da Jennifer Saunders (isbn13: 9780241967263, format: Paperback, Penguin). 
Conhecida do público português pelas séries "French and Saunders" e "Absolutely Fabulous", era, mais que a obra, a mulher em si que me fascinava.  Sempre que a via sem ser a encarnar um "boneco" ficava fascinada com o que dizia e a maneira que demonstrava ser.  E, apesar de ela ser uma comediante, não estava à espera de rir ao ler este livro.  Mas a verdade é que, quando cheguei à parte em que ela transcreve a sua participação num filme francês (depois de ter mentido e afirmado que dominava a língua) fez-me rir até às lágrimas...  Ainda bem que estava sozinha em casa!

Nota 4



2 - "Life and laughing - My Story" de Michael MccIntyre (isbn13: 9780141045672,  format: Paperback, Michael Joseph)
Se não conhecem o humor de Michael McIntyre, desafio-os a pesquisá-lo no Youtube...  e a verem só um clip!  A primeira vez que o fiz (uma noite em que o sono teimava em não chegar) às 6h da manhã ainda estava a rir, feita parva, em frente ao ecrã do computador.  Mesmo nas entrevistas que dá, Michael McIntyre consegue sempre fazer-me rir (experimentem a ida dele ao Top Gear).  Decidi ler a sua autobiografia para conhecer um pouco mais do homem por trás da comédia.  Gostei do livro, que é uma janela aberta para a sua vida e para as dificuldades que teve de ultrapassar antes de atingir o sucesso.  Michael dá esperança a todos os sonhadores!

Nota 4



3 - "Is it Just Me?" de Miranda Hart (isbn13: 9781444734164, format: Paperback, by Hodder & Stoughton).
Miranda Hart é uma humorista que aposta no humor à antiga (físico e baseado na sua natural falta de jeito - para a qual o seu metro e oitenta ajuda bastante), para arrancar gargalhadas ao público.  Deu, também, mostras da sua capacidade mais dramática com o seu papel em "Call the Midwife".  O livro é escrito em formato de diálogo entre a Miranda do Presente e o seu "Eu" Passado...  A sua aprendizagem ao longo dos anos, a sua evolução e os seus conselhos...

Nota 3

quinta-feira, 17 de outubro de 2013


 
 
 
 


domingo, 6 de outubro de 2013

A Maior Flor do Mundo





A Maior Flor do Mundo
de José Saramago
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722114370
 
 
Sinopse:
 
Sabia que José Saramago tinha escrito um livro para crianças (dos 7 aos 77, como costuma dizer-se, porque estes livros, se bem que recomendados para os mais novos, não têm, por assim dizer, "limites de idade") ? "A Maior Flor do Mundo" conta a história de um menino que vai até ao fim do mundo para salvar uma flor. Ou ainda, como diz o Nobel da Literatura, é "uma proposta para as crianças reinventarem outras histórias". As ilustrações são de João Caetano.
 
 
 
 
Começou um novo ano lectivo e, na livraria onde trabalho (tal como em todas as outras do País, estou certa) as últimas semanas têm sido preenchidas com a correria dos pais, de lista de livros em punho, à procura dos livros de leitura obrigatória para os filhos levarem para a escola.  A minha sugestão de hoje, e porque ainda sou uma criança de 34 anos, é o livro infantil de José Saramago constante do Plano Nacional de Leitura (admito que não sei para que ano está direcionado). 
"A Maior Flor do Mundo" é, a meu ver, um excelente exemplo de como os livros infantis não têm de ser restritivos e podem (e devem!) ajudar a criança a aumentar os seus conhecimentos linguísticos.  O autor começa por falar em como os livros de criança devem ser escritos com palavras simples, e de como ele nunca aprendeu a escrever assim...  depois segue-se a sua tentativa de contar uma história...  a história que ele contaria se soubesse escrever livros de criança.

Como acho que os pais devem poder ajudar os filhos, e sabendo como é escasso o tempo da maior parte das pessoas hoje em dia, deixo aqui ficar uma belíssima animação, com a história do livro, narrada pelo autor.  Espero que gostem! 
 
 
 
 
 
Nota 4

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Rugas





Rugas
by
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Odisseia de Edward Tulane




 
A Odisseia de Edward Tulane
de Kate DiCamillo
Editor: Edições Gailivro
ISBN: 9789895574612
 
 
Sinopse:
 
Era uma vez um coelho de porcelana chamado Edward Tulane. O coelho vivia feliz com a sua dona, Abilene, uma menina que o adorava mais que tudo! Mas um dia, Edward perde-se... Kate DiCamillo leva-nos numa viagem extraordinária: Das profundezas do oceano às redes de um pescador, do cimo de um monte de lixo ao acampamento de sem-abrigos, da cabeceira de uma criança doente às ruas de Memphis... Brilhantemente ilustrado por Bagram Ibatoulline.
 
 



Gostei mesmo muito deste livro (que comprei há meses para quando o piolhinho for maior).
Há uma predisposição para se procurar livros infantis alegres, em que tudo é belo e florido e onde o herói é sempre feliz... Esta obra de Kate DiCamillo não é assim! É a história (a Odisseia) de um coelho de porcelana, egoísta e vaidoso, que vai penar bastante antes de ter o seu "final feliz" (que o há, mas mais difícil de atingir). Mas, nesse percurso penoso e longo, aprende uma lição sem preço... aprende a aceitar o Amor que lhe dão mas, mais importante ainda, aprende a Amar quem lhe quer bem!
Sim, é um livro triste às vezes (ele perde-se, fica no fundo do mar, é recuperado, é abandonado, é descoberto por um vagabundo, é atirado para longe, é feito espantalho, é roubado, é adoptado, a sua dona morre, tem a cabeça partida em 21 pedaços,...), mas é uma lição de amor aprendida numa aventura belíssima e magistralmente escrita... Porque as crianças devem aprender que nem tudo na vida vem facilmente... E que o Amor é a maior dádiva do Mundo!



Nota 4

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Pérola



A Pérola
de John Steinbeck
Editor: Livros do Brasil (Colecção Nobel)
ISBN:  9723827948
 
 
Sinopse:
 
Baseada num conto popular mexicano, A Pérola constitui uma inesquecível parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo tão contraditório em que vivemos. É, assim, a história comovente de uma pérola enorme, de como foi descoberta e de como se perdeu… levando com ela os sonhos bons e maus que representava, mas é também a história de uma família e da solidariedade especial entre uma mulher, um pobre pescador índio e o filho de ambos.
 
 
 
Mais uma ideia retirada aos alunos que vão lá à loja à procura de mais um livro do Plano Nacional de Leitura.  Este costuma granjear simpatias por ser tão fino...
 
Kino é um pobre pescador que nada tem de seu excepto uma canoa, o seu casebre e a família.  Ele e a mulher, Juana, têm um bebé, Coyotito, que é peça fulcral em toda a acção.  Quando Coyotito é mordido por um escorpião, os pais apressam-se a levá-lo à cidade, a casa do médico, mesmo sabendo que, como indigentes, dificilmente serão atendidos.  Mas o desespero de ver o filho perto da morte faz com que ambos (se bem que principalmente Juana) esqueçam os obstáculos e acorram a casa do curandeiro.  Mas a sua pobreza não lhes dá acesso para lá dos portões onde, perante o olhar da aldeia que os seguira, são enxotados.  Kino é um homem orgulhoso, e a desfeita pública faz-lhe ferver o sangue.  Quando, posteriormente, encontra uma pérola de grande tamanho, a "pérola do mundo" o seu coração rejubila com a ideia de vingança e de contas ajustadas.  Ele não sonha em fazer sofrer quem o ofendeu...  Não!  Para ele a maior vingança será poder casar na igreja com Juana, poder andar vestido sem ser de forma andrajosa e, mais importante, poder colocar Coyotito na escola onde ele escapará a uma vida de analfabetismo e miséria como a dos seus pais.  Claro que, assim que se espalha a notícia da existência de uma tal Pérola, os interesseiros chegam aos magotes...  Sendo que o primeiro é o médico, lustroso, que vem ver a criança na esperança de riquezas futuras.  Mas Kino está atento...  Aos seus ouvidos soa, ininterruptamente, a "canção do inimigo", sinal supremo de traição e perigo.  E assim, uma Pérola que se prometia benfeitora, torna-se a raiz de todos os males!
 
Gostei muito deste livro/conto.  Acho que Steinbeck, de forma quase poética, conseguiu ilustrar o negrume e os limites (ou falta deles) da ambição humana.  É um livro pequeno, mas com uma mensagem poderosíssima, que faz pensar!
 
 
Nota 4

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Casos do Beco das Sardinheiras



Casos do Beco das Sardinheiras
de Mário de Carvalho
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722105927
 
 
 
Sinopse

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado no programa de português do 9º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

Excerto
"O Beco das Sardinheiras é um beco como outro qualquer, encafuado na parte velha de Lisboa. Uns dizem que é de Alfama, outros que é já de Mouraria e sustentam as suas opiniões com sólidos argumentos topográficos, abonados pela doutrina de olissiponenses egrégios. Eu, por mim, não me pronuncio. Tenho ideia de que ali é mais Alfama, mas não ficaria muito escarmentado se me provassem que afinal é Mouraria. Creio que o nome lhe vem das sardinheiras que exibem um carmesim vistoso durante todo o ano, plantadas num canteiro, que rompe logo à esquina, não longe da drogaria que já fica na Rua dos Eléctricos.
A gente que habita o Beco é como a demais. Nem boa nem má. Tem sobre os outros lisboetas um apego ainda maior ao seu sítio e às suas coisas. Desde há muito tempo que não há memória que algum dos do beco tenha emigrado de livre vontade."
 
 
 
Quando se trabalha numa livraria e se tem a paixão pelos livros, é inevitável que os livros que mais nos pedem nos comecem a a atiçar a vontade de os folhear.  Aconteceu-me já com o "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar", e, agora, com este maravilhoso livro de contos.  Já aqui disse que os contos não são o meu estilo literário de eleição.  Por norma fico sempre com vontade de mais e pergunto-me por que motivo o/a autor/a não investiu um pouco mais de tempo e trabalho para transformar cada conto num romance.  Costumo dizer que o conto é como a comida chinesa:  sacia-nos no momento, mas meia-hora depois estamos cheios de fome.
Pois bem...  Não há regra sem excepção!
Adorei este pequeno livro e os seus contos...  A história do homem que engole a lua; a da pedra tão pesada que só uma criança lhe consegue pegar; o túnel que acaba no marco do correio; o instrumento musical que, quando tocado, faz desaparecer tudo em seu redor; a nuvem que não pára de chover, mesmo dentro de casa.  Adorei!  Não duvido que irei reler este livro!
 
A colocar defeito seria só no uso excessivo da palavra “escanifobético/a”, que surge em (quase) todos os contos. Mas como me trouxe reminiscências nostálgicas da infância (o livro é de ’82 e eu da colheita de ’79), numa altura em que toda a gente a usava, deixo passar!
 
 
Nota 4

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Amigos Especiais!



Amigos Especiais
de Jane Chapman
Editora Minutos de Leitura
ISBN 9789727931408


Sinopse:

O Rato está à espera dos seus Amigos Especiais, junto ao rio. Pequenas nuvens brancas passeiam-se pelo céu. E ao pé dos juncos as libelinhas passam a voar.
O Coelho e o Sapo sentam-se com o Rato enquanto ele espera. A Tartaruga partilha o seu piquenique. Está um dia lindo e cheio de sol, perfeito para esperar, mas depressa chega ao fim . . .
Afinal onde estão os Amigos Especiais do Rato? Será que ainda vão aparecer?
Uma reconfortante história sobre passar tempo com os amigos.



Adorei este livro infantil!  Não só a história é um mimo, mas as ilustrações são, também, de uma pessoa se perder na criança que vive dentro de nós.
O Coelho encontra o Rato, que lhe diz estar à espera dos seus "Amigos Especiais" e decide fazer-lhe companhia.  De seguida chega o Sapo, que ao saber o porquê de os dois amigos ali se encontrarem, se oferece para ficar com eles.  Por fim chega a Tartaruga e, também ela, se junta aos grupo.  E, assim, enquanto esperam os amigos especiais do Rato, os 4 animaizinhos passam uma tarde excelente, junto o rio, em alegres brincadeiras, piqueniques partilhados e silêncios gozados em grupo.  Nisto, sem aviso, o Rato levanta-se e anuncia que se vai embora.  Os companheiros tentam dissuadi-lo, afirmando que, com certeza, os seus "amigos especiais" estão a chegar.  E é então que o Rato explica:  os seus amigos especiais são eles os 3!
Um livro amoroso, que nos ensina que os verdadeiros amigos são os que se dispõem a estar sempre ao nosso lado...  Mesmo quando não sabem porque o fazem!

Nota 4

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pensamentos homicidas...



Sempre Vivemos no Castelo
de Shirley Jackson
Editor: Cavalo de Ferro
ISBN: 9789896231194


Sinopse

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.» Assim inicia Shirley Jackson o seu último romance, de 1962, considerado pela crítica uma das obras-primas da literatura norte-americana. Neste, atinge o auge a sua perícia narrativa de tornar real ao leitor um mundo inverosímil, conseguindo ao mesmo tempo convencê-lo de que a loucura e o mal habitam os cenários mais comuns.
 
 
 
A-DO-REI este livro!  Gostei tanto que, ontem, estava a acabá-lo e decidi deixar as últimas 10 páginas para hoje, por não querer despedir-me já dele.  Gostei tanto que, hoje, ao aconselhá-lo a um colega da livraria, reparei que já fazia planos para relê-lo, ainda que me faltassem as 10 páginas deixadas de ontem. 
Li várias opiniões sobre este livro em sites de leitura (basicamente por não conhecer nada da obra de Shirley Jackson) e reparei que a visão geral é que o livro é muito negro...  que é difícil sentir empatia por qualquer das personagens...  que a maioria das pessoas não sabe o que achar.  Eu sei!  Acho que sim, a atmosfera do livro é negra; sim, a personagem principal não captará, facilmente, a simpatia dos leitores; sim, é um livro que nos deixa incertos...  mas é disso mesmo que gostei!  Quero dizer...  Quem de nós, no meio de um momento stressante, e confrontado com a opinião e acção antagónica das outras pessoas, não pensou "quem me dera que morressem!"?  Ok...  Talvez não necessariamente com estas palavras, mas vocês percebem a ideia!
 
Esta é a história da família Blackwood.  A família Blackwood era, até há 6 anos atrás do início da acção, o pilar central de uma pequena aldeia norte-americana.  Ricos, poderosos e pretenciosos, os Blackwood marcaram a vida da aldeia, não pelos melhores motivos.  No início do livro, vemos que da família restam 3 membros:  Marricat (Mary Katherine, 18 anos, narradora, presa nos seus 12 anos de idade), Constance (a irmã mais velha, de 28 anos, maternal, caseira), e o Tio Julian (preso a uma cadeira de rodas e a um certo dia, 6 anos antes).  Através de Marricat descobrimos que a população local foge das meninas Blackwood como "o diabo da cruz" ainda que não hesitem em importuná-la nas raras vezes que tem de se dirigir à localidade às compras. 
É que, há 6 anos, durante um jantar de família, todos os outros membros dos Blackwood morreram envenenados com arsénico colocado no açucar.  Marricat estava de castigo, tendo-se portado mal, pelo que foi para a cama sem jantar.  Constance não usava açucar em nada.  O Tio Julian usou pouco, nas amoras, pelo que ficou para sempre enfermo, mas vivo.  Os habitantes locais, convencidos da culpabilidade de Constance nas mortes da família, cantam uma canção feita por medida a Marricat, sempre que a vêm, onde insinuam a possibilidade de a irmã a envenenar.  Constance torna-se a "celebridade" local e magotes deslocam-se à propriedade da família na tentativa de vislumbrar a assassina de ar plácido.  E no meio disto tudo, restam os pensamentos de Mary Katherine ao olhar para os aldeões:  "quem me dera que estivessem todos mortos, no chão...  e eu passar-lhes-ia por cima!"
 
 
Nota 4

terça-feira, 5 de junho de 2012

O meu primeiro Saramago!



(apesar de ter lido a edição comemorativa da Expo '98, deixo aqui os dados da edição ainda à venda)

O Conto da Ilha Desconhecida
de José Saramago
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722123365
Peguei neste livro, em casa dos meus pais, em dia de consulta pediátrica do rebento.  Esquecera-me de levar um livro e com a experiência das salas de espera, achei melhor ir prevenida.  Este era ideal:  curto e leve!  Mas, nestas coisas, parece que fazem de propósito:  nesse dia fomos logo chamados à enfermeira e entrámos da sala directamente para o consultório.  O livro ficou esquecido no saco do Alexandre até à semana passada, em que, estando de férias, lhe fui dar vistoria.  Finalmente mergulhei no meu primeiro Saramago!
"Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar."
Assim começa este pequeno conto, que, apesar da curta dimensão, conseguiu encher-me as medidas!  Não sei explicar do que gostei mais:  se do retrato irónico (e, no entanto, tão real) da burocracia de um País; se da teimosia salutar do "homem" em perseguir um sonho que lhe diziam inatingível; se da constatação de que, quando menos esperamos, compreendemos que não estamos sós; se da última frase do livro "Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma." (sei que pode parecer estranha, esta minha última opção, mas acho sempre que um livro que acabe de forma a que pensemos "que belo final!" é um livro a que, mais facilmente, retornaremos).
Não sei o que me fez gostar tanto deste conto (logo eu, que tenho um historial tão complexo com este género), mas gosto de pensar que tenha sido a escrita de Saramago...  Pelo sim, pelo não, já planeio novos assaltos à estante paterna!
Nota 4

sexta-feira, 30 de março de 2012

Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata



A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata
de Annie Barrows, Mary Ann Shaffer
Editor: Suma de Letras
ISBN: 9789896720155


Sinopse

Londres, 1946. Depois do sucesso estrondoso do seu primeiro livro, a jovem escritora Juliet Ashton procura duas coisas: um assunto para o seu novo livro, e, embora não o admita abertamente, um homem com quem partilhar a vida e o amor pelos livros. É com surpresa que um dia Juliet recebe uma carta de um senhor chamado Dawsey Adams, residente na ilha britânica de Guernsey, a comunicar que tem um livro que outrora pertenceu a Juliet. Curiosa por natureza, Juliet começa a corresponder-se com vários habitantes da ilha. É assim que descobre que Guernsey foi ocupada pelas tropas alemãs durante a segunda Guerra Mundial, e que as pessoas com quem agora se corresponde formavam um clube secreto a que davam o nome de Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata. O que nasceu como um mero álibi para encobrir um inocente jantar de porco assado transformou-se num refúgio semanal, pleno de emoção e sentido, no meio de uma guerra absurda e cruel.
Outro livro adquirido nos "saldos" e este, ao contrário d' "O Túnel", não só convenceu como me satisfez plenamente durante o tempo de leitura. 
Não vou ao ponto de afirmar que é um livro excelente, indispensável a qualquer biblioteca, mas, enquanto livro, cumpre todos os objectivos a que se propõe:  distrai, enreda, educa e consome. 
Como já referi, sou mãe há pouco tempo (faz hoje 17 meses...  parabéns, filhote!) e, como tal, o tempo que posso dispender diariamente às páginas dos meus companheiros livros é limitada.  Este foi um livro que me viu, várias vezes, a escapulir até à casa de banho para, de porta fechada, ler mais duas páginas.  Teve, inclusivé, o direito de me acompanhar ao trabalho para comigo partilhar a hora de almoço.  É, mesmo, assim tão envolvente!
O facto de ser escrito em formato epistular também ajuda neste consumo rápido, pois confere-lhe um ritmo superior e, com isso, enreda-nos mais na acção...  Se bem que há personagens que, ao sabermos receptoras da missiva, nos esfria a ânsia.
A história, passada na Inglaterra do pós-guerra (Segunda Guerra Mundial), apresenta-nos Juliet, uma jovem escritora que, tendo escrito um livro durante a guerra, goza agora de uma semi-notoriedade de autora consagrada.  Para agradar aos fãs, Juliet procura em si a chama que lhe poderá trazer a inspiração para uma nova obra...  mas essa chama é menos de um fósforo, no início do livro.  É, então, que recebe a carta de um desconhecido que, tendo adquirido um livro que pertencera a Juliet, entra em contacto com a jovem, levando a uma mudança que a irá marcar pessoal e profissionalmente. 
Adorei os relatos dos habitantes de Guernsey sobre a ocupação nazi (uma ilha do Canal da Mancha sob o jugo da coroa britânica), bem como da necessidade da sua população em manter alguma sensação de normalidade durante essa situação, quando o seu Governo estava tão longe e nada parecia fazer por si.  Aprendi, por exemplo, que numa tentativa de matar as tropas nazis de fome, Churchill negou-se a enviar matimentos para a ilha, "esquecendo-se" que também os habitantes morreriam.  A única coisa que ainda ia havendo era...  batatas!  (que deram ao livro o título delicioso que me "abriu o apetite")
Se tenho de ser verdadeiramente crítica (e não há maneira de se escrever este género de blog sem o ser) devo admitir que me aborreceu um pouco a parte romântica da história.  Acredito que o livro se bastaria enquanto relato ficcional de um período negro mas que, como uma luz, imprime um gosto de esperança, humor e amizade à história...  Mas...  Compreendo!  Foi esta a maneira, quiçá, de chegar a um público maior que, de outra forma, nunca pegaria nesta obra.
Nota: 4

terça-feira, 5 de abril de 2011

Pretty Woman da literatura

"A Romana"
Alberto Moravia
Ulisseia
ISBN: 972-568-449-4

EAN: 9789725684498

Sinopse


A Romana, publicada numa época em que a Itália do pós-guerra vivia numa situação de extrema penúria, é a descrição pormenorizada da queda anunciada de uma jovem, Adriana, que no entanto conserva dentro de si, através de todas as vicissitudes que a vida a força a enfrentar, uma surpreendente pureza de alma.
 
 
 
Este livro, um dos mais conhecidos, no nosso país, de Alberto Moravia, foi escrito entre 1943 e 1946, sendo publicado em ’47 e foi, segundo vários críticos da obra do autor, um marco importante no desenvolvimento criativo do escritor.


Focada principalmente em Adriana, uma jovem pobre, sensível, optimista e sonhadora que, quebrada pelas agruras da vida, recorre à prostituição como forma de subsistência, a obra conta ainda com outras personagens que, à sua maneira, vivem também a sua desilusão e mágoa de viver – um oficial Fascista e um idealista que, ao ser interrogado por agentes, acaba por, contra as suas ideologias e crenças, entregar os seus colegas ás autoridades. Sendo a desilusão humana face aos obstáculos que a vida lhe impõe uma característica de Moravia, este romance tem, contudo, um véu de esperança que, sendo uma característica única e pessoal de Adriana, não encontramos nas outras obras.

Adriana, uma jovem de grande beleza e dona de um corpo escultural, vive com a sua mãe, Margherita, num nível de pobreza honesta. Adriana aspira, mais do que tudo, a um casamento feliz com Gino, por quem se apaixona perdidamente, mas a sua mãe, costureira de profissão, após ter sido seduzida e abandonada por um homem, perdeu toda a confiança nos homens e no casamento… Assim sendo, planeia a sua própria ascensão social às custas da beleza da filha. Para isso começa por incentivar Adriana a posar como modelo para pintores. Nos estúdios dos artistas conhece outras raparigas que para eles posam, sendo que começa uma amizade com Gisella, uma rapariga que, sem que Adriana o saiba, não olha a meios para atingir os fins. Entretanto um agente policial fascista, Astarita, apaixona-se por Adriana e pretende, a qualquer custo, partilhar com ela momentos de amor e luxúria. Com a cumplicidade de Gisella, e recorrendo à chantagem e ao amor que ela tem por Gino, consegue partilhar com ela momentos de intimidade pelos quais lhe paga a soma de 3 mil liras. Mais tarde, e descobrindo que Gino já é casado, Astarita usa esta informação para tentar fazer com que a jovem se apaixone por si. Desiludida com o amor e os homens, Adriana decide que não será mulher de nenhum mas amante de todos, tornando-se prostituta. Após várias peripécias, sempre seguida pelo polícia que a não esquece, Adriana conhece e apaixona-se por Giacomo, um estudante de Direito, reivindicativo e permanentemente descontente com a sociedade e com todos (incluindo ele próprio). Giacomo, um idealista que, por vezes, parece não saber em que acredita, planeia com amigos uma revolta anti-fascista chegando, inclusive, a elaborar panfletos de teor político. Quando, mais tarde, é pressionado pela polícia, trai os seus ideais e os seus amigos, entregando-os aos agentes. Incapaz de viver com o remorso, acaba por se matar.

O curioso deste romance é que a personagem que mais motivos tem para se entregar ao desânimo, Adriana (primeiro pela sua pobreza e pela criação que a sua mãe lhe dá, depois pela forma como é, continuamente, enganada e usada pelos homens da sua vida, a forma como tem de usar os atributos físicos para conseguir sair do negrume social e económico em que vive, o facto de engravidar de um homem que não ama e de perder o homem que quer), é precisamente essa a personagem que transmite a sensação de esperança, crença e optimismo que, ainda que subtilmente, dá o colorido à obra.


Nota 4

terça-feira, 15 de março de 2011

E é amar-te assim, perdidamente...


Florbela Espanca - A Vida e a Alma de uma Poetisa
José Carlos Fernández
Edições Nova Acrópole
ISBN - 978-972-9026-84-3
EAN - 9789729026843


Sinopse:
"Ecos longínquos de ondas...  de universos...
Ecos de um mundo...  de um distante Além,
De onde eu trouxe a magia dos meus versos!"
Florbela Espanca, "Sou Eu!", in Charneca em Flor
Nestas páginas, o leitor encontrará um retrato da vida e da alma da maior poetisa portuguesa.  As cartas, o seu Diário, os contos que ela escreveu, os acontecimentos que viveu, factos objectivos na teia do mundo, permitem-nos conhecer melhor esta inspirada artista da palavra, Florbela Espanca.
E, ainda, penetrar no labirinto e no jardim encantado das suas intimas vivências e imaginação: Claustro de Saudade e Beleza do qual nunca sairemos iguais a quando entramos.  Pois Ela reina nele como puro símbolo e sacerdotisa do Eterno Feminino, nesse Amor inextinguível por tudo e por todos, que converteu nas jóias alquímicas e transfiguradoras de seus poemas.


Já alguma vez se apaixonaram literariamente? Um amor por aquele autor, ou autora, que se descobre quase por acaso e que nos acompanha ao longo dos anos? Eu, eterna apaixonada da palavra impressa, tenho tido algumas destas paixões ao longo dos anos (graças a dEUS, é aquele tipo de amor que, ao contrário das relações pessoais, não exige monogamia). A primeira (que como diz a sabedoria popular, nunca se esquece) terá sido a Condessa de Ségur, rapidamente seguida da Enid Blyton… depois, Agatha Christie… Tolstoi… E, um dia, descobri a poesia (andava escondida na biblioteca do meu pai, tão perto de mim e, ao mesmo tempo, escondida entre centenas de títulos). Aí ganhei dois novos amores: Vladimir Maiakovski e Florbela Espanca! Não sei explicar o gosto que me fez apaixonar por estes dois poetas tão díspares, mas a verdade é que ambos falaram à minha sensibilidade. Florbela, quiçá considerada uma poetisa de “pouca monta” (leia-se baixa qualidade) cativou-me com os seus versos simples e sonetos despretensiosos… e, talvez, com o seu passado que, tal como o meu, teve origem em terras alentejanas! O livro que me conquistou, o supracitado pertence de “papai”, é uma versão belíssima, com fotografias soltas a imitar as antigas, a preto e branco com um rendilhado branco à volta. Isso contribuía, na minha mente artística de criança, para o namoro com a autora de “Velhinha” (um dos meus sonetos favoritos da autora):


Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! ...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!
Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente ...
Já murmuro orações ... falo sozinha ...
E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos ...

A sua vida, essa, dava, só por si, um livro (e, quem sabe, uma adaptação para novela de horário nobre). Nascida em Vila Viçosa a 8 de Dezembro de 1894, filha ilegítima de um homem que coleccionava empregos e que teve com outra mulher os filhos que não podia ter com a legítima, Florbela foi criada pelo pai e pela esposa (como sua madrinha) tendo, no entanto, só sido reconhecida como sua filha postumamente. Florbela tinha, ela própria, uma grande dose de socialmente incorrecto. Com seu irmão, Apeles, viveu um amor fraternal que muitos dizem ter ultrapassado a barreira do aceitável, havendo, inclusive, vozes que se ergueram para pronunciar a palavra proibida… incesto. O que não deixa margem para dúvidas, no entanto, é o extremamente depressivo estado em que Florbela se encontrava constantemente… Ao descobrir um edema pulmonar, em 1930, conseguiu com sucesso o que já antes tentara sem conseguir… suicidou-se. Tinha 36 anos.
Sei que já falei muito sobre este meu (sério) caso de amor… mas as paixões são assim… perdemo-nos nelas e nem notamos que nos monopolizam as conversas e a mente. Só posso deixar um conselho… Percam-se na nova biografia de Florbela, de José Carlos Fernández… Vale a pena o tempo dedicado!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

S.O.S. pais




O Livro dos Pais
Paulo Oom
Ed. Matéria Prima
EAN 9789898461018


Sinopse

A aventura de criar um filho é maravilhosa mas também provoca muita ansiedade e preocupação. Saber o que fazer para ajudar os nossos filhos perante uma doença, um acidente ou uma birra pode ser difícil. Essa dificuldade faz com que os pais recorram aos profissionais de saúde, colocando as dúvidas que os inquietam. Aliando a sua vasta experiência como Pediatra à de pai de cinco filhos, dos 6 aos 20 anos, Paulo Oom decidiu reunir neste livro as perguntas que lhe são colocadas com mais frequência e que mais marcam o dia-a-dia dos pais e das mães.
Respondendo a questões que vão desde o primeiro mês do bebé até à adolescência, passando por temas como a alimentação, o desenvolvimento e as doenças mais comuns, o autor apresenta aqui um verdadeiro manual de instruções para lidar com o seu filho desde tenra idade.



Fui mãe pela primeira vez à pouco tempo... Na verdade fez, à cerca de 10 horas, 2 meses que me colocaram nos braços, pela primeira vez, um pequeno ser a quem se decidiu chamar Alexandre! Como acontece com muitas mães eu estava na altura, lamento dizê-lo, complectamente inconsciente do trabalho que acartava o dar vida a um ser. A maior parte dos pais, quando decide "aumentar a família", mentaliza-se para as fraldas borradas, as noites mal dormidas, as birras, as roupinhas que lhes acenam sedutoramente das montras das lojas, até mesmo dos enjoos e desejos gestacionais... Mas, por mais que mergulhem num sem número de livros da linha "what to expect when you are expecting", a verdade é que, a partir do momento que entram a porta de casa pela primeira vez com a sua carga preciosa nos braços começam, quase de imediato, a ser assaltados por dúvidas que nem sabiam que tinham. Quando, após a primeira birra, e depois de esgotar as possibilidades de fome-frio-calor-fralda_suja-mimo-cólica-prisão de ventre sem qualquer resultado, quase todos, em desespero de causa, desejam poder ter, a seu lado, para os guiar, a mão firme e experiente de um pediatra. E, após a vigésima chamada para o saúde 24, a maior parte sente, também, mais do que a própria incapacidade de poder e conhecimento parental, uma enorme vergonha por ter de depender de uma voz anónima para conseguir perceber o próprio filho. Este livro vem em auxílio a esses desesperados seres a quem se dá o nome de "Pais"!

Paulo Oom, pediatra de renome e, ele próprio, pai de 5 jovens com idades dos 6 aos 20 anos, coloca, assim, ao dispor de quem mais precisa a sabedoria que angariou ao longo dos anos enquanto profissional e progenitor. Neste volume podem os pais encontrar as respostas a questões tão díspares como "o que é a milia?", "como saber se está tudo bem com a sua criança vegetariana?", "deve ser feito algum exame antes de se iniciar um antibiótico?", "como se trata a dermatite das fraldas?", "existem as dores de crescimento?", ou mesmo "que tipo de óculos de sol se deve comprar?".

As questões e respostas fornecidas pelo médico visam exclarecer as dúvidas que possamos ter sobre vários temas (crescimento, desenvolvimento, alimentação, doenças mais frequentes, vírus e bactérias, medicamentos, acidentes e sua prevenção, disciplina e tempos livres e, finalmente, campo, sol e praia) numa linguagem acessível a todos os leigos da medicina. Como o prórpio autor nos diz, na sua introdução "Utilizei uma linguagem simples, sem termos médicos complicados, e procurei transmitir os aspectos mais práticos da arte de ser pai ou mãe. Espero que vos ajude em momentos de dúvida a compreender e lidar melhor com os vossos filhos. E, principalmente, que torne a aventura da educação de uma criança, ainda mais entusiasmante:"

Eu, leitora compulsiva, me confesso... é este, de momento, o meu livro de cabeceira!


 
Nota 4

terça-feira, 31 de agosto de 2010




O Trinufo dos Porcos
George Orwell
Publicações Europa-América
EAN: 9789721040984



Sinopse:

Livro recomendado no programa de Português do 9º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

Publicado pela primeira vez em 1945, "O Triunfo dos Porcos" transformou-se na clássica fábula política deste século. Acrescentando-lhe a sua marca pessoal de mordacidade e perspicácia, George Orwell relata a história de uma revolução entre os animais de uma quinta e o modo como o idealismo foi traído pelo poder, pela corrupção e pela mentira.




Publicada pela primeira vez em 1945, esta obra saída da pena do autor de "1984", é, também ela, carregada de uma forte crítica política e social. Inspirada na Revolução Comunista Russa, Orwell consegue, ao colocar o âmago da acção na mão dos animais (principalmente dos Porcos mencionados no título desta tradução) chocar os leitores com a bestialidade do ser humano. E, ao lermos as suas palavras, não conseguimos evitar debatermo-nos com um dilema moral: se tais acções nos chocam nos animais, porque motivo as aceitamos ao Homem?

Em relação às edições disponíveis em Portugal, apesar das críticas às publicações da editora Europa-América, depois de me debruçar sobre a edição desta e a de uma outra editora (que manteve o mais correcto nome, em relação ao original, "A Quinta dos Animais"), acabei por adquirir esta. Isto porque, enquanto estudante de Línguas e Literaturas (especialização de Tradução) encontrei na outra, logo nas primeiras páginas, um grave erro de tradução:  o tradutor decidiu traduzir os nomes de todas as personagens, tornando-as "mais portuguesas".  Ora, como qualquer aluno iniciado nas artes de traduzir lhes poderá dizer, uma das regras elementares da tradução é "NUNCA se traduzem nomes próprios!".  Daí aconselhar a edição da Europa-América!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Agatha Christie




A diabólica casa isolada/Os treze problemas
Agatha Christie
Edição Livros do Brasil
Colecção Vampiro Gigante


Sinopses

A Diabólica Casa Isolada:
Nick não é um nome vulgar numa mulher. Mas Nick Buckley não é uma jovem vulgar. Mais invulgar ainda é a quantidade de "acidentes" de que tem sido vítima: numa traiçoeira encosta da Cornualha, os travões do seu carro falham; mais tarde, num caminho costeiro, serão apenas alguns uns centímetros que a separarão de uma derrocada; por fim, escapa por pouco quando um pesadíssimo quadro cai e quase a esmaga durante o sono. Serão estes "acidentes" meras coincidências?
Após ter descoberto um buraco de bala no chapéu de Nick, Hercule Poirot decide que a jovem precisa da sua protecção. E começa a deslindar o mistério de um assassinato que não foi cometido. Ainda...

Os Treze Problemas:
Numa terça-feira à noite, um grupo de amigos junta-se em casa de Miss Marple e a conversa decorre em torno de crimes por resolver. Cada um dos participantes está convencido de que é melhor conhecedor da natureza humana que os restantes, o que dá o mote à criação do Clube das Terças-feiras, ocasião para que cada um deles apresente um caso do qual apenas o próprio sabe a solução. Caberá a todos os outros convivas provar até que ponto são bons observadores e ouvintes e tentar deslindar os sucessivos mistérios.
As noites de St. Mary Mead passam, pois, a ser dedicadas ao crime...
Os Treze Enigmas (The Thirteen Problems) foi publicado na Grã-Bretanha em 1932; no mesmo ano apareceu nos Estados Unidos sob o título The Tuesday Club Murders.



Neste livro, os dois pesos pesados da literatura policial que são Hercule Poirot e Miss Marple, apresentam-se para deleite dos leitores.

A primeira história traz-nos o detective belga, na companhia dos seus fiéis companheiros Capitão Hastings e Inspector Chefe Jaff. Poirot e Hastings encontram-se de férias num hotel na Cornualha quando conhecem uma jovem a quem chamam Nick. Esta conta-lhes alguns acidentes bizarros que lhe têm acontecido nos últimos tempos e que, por pouco, não lhe roubam a vida. Durante a conversa a jovem sente uma vespa passar-lhe junto à cabeça e, com um gesto despreocupado, tenta enxotá-la. Ao ir-se embora deixa para trás o seu chapéu... Nessa altura, Hercule Poirot percebe que a jovem corre mesmo perigo, ao constatar que a vespa era, afinal, uma bala que deixou um buraco no chapéu e que, por pouco, não ceifou a vida a Nick. O detective decide, assim, tomar a seu cargo a protecção da jovem... Ainda que os seus amigos tudo pareçam fazer para o impedir a ter sucesso. Mas... Será tudo aquilo que parece ser???

O segundo livro deste volume, é formado por treze contos com Miss Marple como figura principal. A saber: O "Clube Nocturno de Terça-Feira", O Ídolo de Astarte, Lingotes de Ouro, O Pavimento Ensaguentado, Motivo e Oportunidade, A Marca do Polegar de São Pedro, O Gerânio Azul, A Companheira, Os Quatro Suspeitos, Uma Tragédia de Natal, A Erva da Morte, O Caso do Bangaló, Morte Por Afogamento. Este livro divide-se em 3 partes. Os seis primeiros contos têm lugar na casa da idosa residente de St. Mary Mead quando, num serão acompanhada pelo sobrinho escritor Raymond, pela artista plástica Joyce, por Sir Henry Clithering (reformado da Scotland Yard), o clérigo Dr. Pender e pelo advogado Mr. Petherick, decidem fazer um jogo no qual cada membro apresentará um mistério do qual só o próprio sabe a solução para que os restantes membros o tentem resolver. Ainda que, de princípio, os membros mais jovens do Clube não contem com Miss Marple para o mesmo, a verdade é que esta é a única a conseguir resolver todos os enigmas. Os seis contos seguintes têm lugar num jantar em que Sir henry Clithering, tendo sido convidado, lança o nome da idosa para os convivas e decidem reviver o espírito do Clube das terças-feiras. O último conto é uma história isolada na qual Miss Marple e Sir Henry voltam a unir esforços. Em todos os contos uma coisa se torna óbvia: Miss Marple tem razão quando diz que, ao se viver numa pacata aldeia inglesa, se consegue ter um perfeito conhecimento da natureza humana... Ela prova-o, ao decifrar Os Treze Problemas.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Revolutionary Road




Revolutionary Road
Richard Yates
Biblioteca Sábado
EAN 5602831080654


Sinopse

O primeiro romance de Richard Yates, Revolutionary Road, tornou-se um clássico logo após a sua publicação em 1961. Nele, Yates oferece um retrato definitivo das promessas por cumprir e do desabar do sonho americano. Continua hoje a ser o retrato da sociedade americana.
Um casal jovem e promissor, Frank e April Wheeler, vive com os dois filhos num subúrbio próspero de Connecticut, em meados dos anos 50. Porém, a aparência de bem-estar esconde uma frustração terrível resultante da incapacidade de se sentirem felizes e realizados tanto no seu relacionamento como nas respectivas carreiras. Frank está preso num emprego de escritório bem pago mas entediante e April é uma dona de casa frustrada por não ter conseguido seguir uma promissora carreira de actriz. Determinados a identificarem-se como superiores à crescente população suburbana que os rodeia. decidem ir para a França onde estarão mais aptos a desenvolver as suas capacidades artísticas, livres das exigências consumistas da vida numa América capitalista. Contudo, o seu relacionamento deteriora-se num ciclo interminável de brigas, ciúmes e recriminações. o que irá colocar em risco a viagem e os sonhos de auto- -realização.


Tal como aconteceu com o Quem Quer Ser Milionário, também com este livro surgiu na minha lista de futuras leituras após ter visto o filme. Mas, se no caso do primeiro, foi o seu lado de entretenimento e de possibilidades infidáveis que me atraiu, neste foi a inevitabilidade da vida humana com todos os seus dramas por trás de portas fechadas. Este NÃO é o livro a ler se se quiser afastar dos negrumes do dia-a-dia... Pelo contrário. No entanto, e tendo já uma pilha de livros "a ler", a ganhar pó nas várias prateleiras espalhadas pela casa, não via necessidade em comprar imediatamente um livro do qual já conhecia a história. Os seus (quase) 17€ podiam ser aproveitados em viagens literárias aventureiras das quais ainda não conhecia o percurso. Mas foi então, quase como que em resposta a uma prece que nunca chegara a fazer, que a revista Sábado decidiu prendar os seus leitores com mais uma colecção de magníficas obras a 1€ cada. Revolutionary Road era uma delas!!! (já agora, e em forma de nota e em resposta a todos os que já me perguntaram, desconfiados, da qualidade da tradução dos livros que saem com a revista, dou como exemplo este, cuja tradução de Isabel Baptista foi cedida pela editora Civilização, a editora a comercializar o livro em Portugal - EAN/ISBN 9789722626361).

Quanto ao livro propriamente dito... Excedeu as minhas expectativas!!! A maneira como Richard Yates elaborou esta brilhante obra de arte literária é de uma mestria e excelência recomendáveis. A história, que aborda as insatisfações e frustrações profissionais e pessoais de um jovem casal a viver o suposto "american dream", está escrita de uma maneira que sentimos, tal como eles, que os dias são rotineiros e custam a passar... Não quero com isto dizer que o livro esteja escrito de uma forma "secante". Muito pelo contrário. Acredito ser este um dos exemplos do génio literário de Yates. Uma demonstração de como, ainda que dizendo-se muito, consegue-se passar uma sensação de quase estagnação. No entanto, a partir do momento em que Frank e April decidem perseguir o seu sonho e viajar para Paris, numa fuga à "vida quotidiana" e numa perseguição final dos sonhos há muito esquecidos, os momentos parecemn encadear-se uns nos outros com uma rapidez que, só os que já se entregaram aos sonhos, conseguem reconhecer. Existe uma sofreguidão, um desejo de romper as barreiras e algemas sociais que nos impomos a nós próprios, que o tempo parece compactuar com essa nossa urgência, apressando os ponteiros do relógio. É então que a "vida real" e o senso comum chegam e põem um pé no travão das ideologias. Os "mas", "e se", "será que...", multiplicam-se na nossa mente até congelarem os movimentos e aterrorizarem a esperança... E acabamos por nos conformar à existência neutra e segura que abominamos, que nos aprisiona mas nunca falha. Adorei!!!


Nota 4

quarta-feira, 24 de março de 2010

Seriedade literária de um cómico de profissão





O Xangô de Baker Street
de Jô Soares
Editorial Presença
EAN 9789722320313
ISBN 972-23-2031-9



Sinopse

Estamos em 1886, o ano da primeira e triunfal tornée de Sarah Bernhardt no Brasil. Na corte de D.Pedro II, passa-se um facto estranho: desaparece o Stradivarius - o último fabricado - que este havia oferecido à baronesa de Avaré. Ao mesmo tempo alguém começa a assassinar jovens mulheres, decepando-lhes sistematicamente as orelhas e deixando nos corpos uma corda de violino. Sarah Bernhardt propõe ao imperador convidar o famoso Sherlock Holmes - e o seu inseparável doutor Watson - para resolver o caso. Misturando sabiamente realidade e ficção, Jô Soares fez deste enredo o ponto de partida de um extraordinário e inspirado romance que ressuscita com rigor histórico os coloridos e contrastantes ambientes do Rio oitocentista. Jô Soares revela assim uma nova e notável faceta do seu talento. Ele encanta-nos e diverte-nos com a sua genial (e maliciosa) recriação de um Sherlock que até fala um perfeito português lisboeta, da "divina" Bernhardt, assim como outras figuras conhecidas da história política e cultural do país. Com o humor inteligente que o caracteriza, Jô Soares escalpeliza os costumes da época e avança a ousada suposição de o Brasil ter sido o berço do primeiro serial killer da História. O resto, só mesmo saboreando a leitura deste livro invulgar, que se lê da primeira à última página sem parar.


Na altura em que este livro saiu, à mais de 10 anos, chamou-me logo a atenção! Talvez porque tudo o que relacionava, então, com a imagem do autor era um homem de dimensões alargadas, a levar a mão à boca e, distribuindo beijos invisíveis, proclamar "Um beijo do Gordo". Não era, propriamente, a ideia que fazia de um autor de policiais! Comprei-o, céptica, e devorei-o entre empolgação e gargalhadas.

Todos já ouviram, pelo menos uma vez na vida, mencionar o nome de "Jack, o Estripador". O serial-killer inglês que assombrou a Inglaterra victoriana, assassinando durante o ano de 1888 prostitutas num dos bairros mais empobrecidos da capital britânica, Whitechapel e que, nunca tendo sido descoberto, ficou conhecido para a história pelo pseudónimo macabro. Eu, que adoro uma boa história de mistério, não só já conhecia o seu nome, como seguia, quase avidamente, as novas teorias que iam surgindo. Qual não foi a minha surpresa quando, ao chegar ao final do livro, descobri que Jack era, na verdade... brasileiro! É assim, o livro de Jô Soares... Absurdo, confuso, divertido e, mais do que qualquer outra coisa... Surpreendente.

Misturando figuras reais da história, como D. Pedro II do Brasil, a música e compositora Chiquinha Gonzaga e a actriz Sarah Bernhardt, com figuras fictícias, mas bem conhecidas de todos, como Sherlock Holmes e o seu parceiro Dr. Watson, Jô Soares leva-nos numa viagem pelas ruas do Brasil dos finais do século XIX, enquanto vamos tentando acompanhá-lo na descoberta de um assassino em série que espalha o terror na aparente calma do povo brasileiro.

Claro que, num livro proveniente da mente de um dos mais famosos cómicos brasileiros, não poderia falar o humor. Neste caso, o mesmo é-nos servido pela rídicula caracterização de Sherlock que, para além de ser um miúpe em negação, chega às suas famosas deduções por sorte ou através do talento dos que o rodeiam.

Este livro NÃO é um clássico... NÃO é o livro para marcar uma vida. Mas, no Verão pelo qual já se anseia, pode ser um excelente companheiro para um daqueles dias de praia solarenga de que todos parecem ter saudades!

Nota 4

sexta-feira, 19 de março de 2010

Memória curta ou Amnésia selectiva?




Captive Passage
The Transatlantic Slave Trade
and the Making of the Americas
Vários Autores
Smithsonian Institution Press
ISBN 1-58834-017-1
EAN 9781588340177


Sinopse:

Publicado em conjunto com a abertura de uma exposição itinerante no Mariner's Museum em Newport News, Virgínia, estes oito ensaios e 160 ilustrações coloridas examinam as causas complexas, os resultados e os legados do 400 anos de comércio de escravos. Entre onze e treze milhões de africanos foram transportados à força através do Atlântico em navios, fazendo desta "passagem em cativeiro "a maior tragédia da história marítima. Este livro importante foca diferentes aspectos do comércio de escravos: a sua base social e económica, por que motivo muitos líderes africanos facilitaram o tráfico de escravos, e como escravos Africano-americanos criaram as suas próprias culturas e mudaram para sempre as Américas. O significado físico, social e emocional de suportar a passagem em cativeiro é explorado, assim como a história e o legado do movimento abolicionista e da luta pela justiça racial.
O livro apresenta um vasto leque de materiais provenientes das colecções do Mariner's Museum e artefactos de todo o mundo reunidos especificamente para esta exposição. Incluem-se gravuras raras, publicadas aqui pela primeira vez, fortalezas de escravos ao longo da costa oeste de África, a arca de bordo de um marinheiro ilustrada com motivos esclavagistas; um selo postal em homenagem padre jesuíta colombiano Pedro Claver, conhecido como o "apóstolo dos pretos" pela sua bondade, e imagens da altura sobre a rebelião a bordo do Amistad.


Sempre me interessei por História (apesar de nem sempre gostar que me dissessem o que estudar e quando estudar). Como em tudo na vida, há partes dela que me interessam mais do que outras. O período negro da História das nações, a que corresponde a duração da escravatura, sempre me atraiu... De uma forma quase mórbida... Da mesma maneira que a maior parte dos condutores abranda ao passar por um acidente na estrada, expectantes de sangue... Sempre me revoltou, confundiu e... Acredito que atraiu é mesmo a palavra certa. Sempre tentei documentar-me o máximo possível sobre o assunto, tentar perceber... Porquê? Porque foi possível? Porque demorou tanto a acabar? Porque é que ninguém se impôs mais cedo? Tantas questões que, nos dias de hoje, ainda envergonham tanta gente que não teve de passar pelas agruras da escravidão nem teve culpa do que se passou.
Este livro é um retrato desse período... Um retrato que nos atinge em cheio na boca do estômago e que nos coloca em frente aos olhos as imagens a que, durante tanto tempo, a Humanidade teimou em fechar os olhos.
Apesar de ser um livro que se centra principalmente na escravatura nas Américas (principalmente América do Norte - USA), as histórias que conta são universais. Não se limitam a espaço geográfico, nação ou credo. É um retrato de todos os escravos, de todos os mercados esclavagistas, de todos os que perderam a voz a caminho de um país que não era o seu, contra a sua vontade.


Nota 4